infografias - maltem.jpg

É POSSÍVEL ELIMINAR A MALÁRIA?

  • Repost: publicação de 09-12-2020

O Director Científico do CISM afirma que sim, porém, não com intervenções paliativas

Um dos resultados do projecto MALTEM, 5 anos depois da sua implementação (2014-2019), foi a redução de casos de malária em cerca de 85%, portanto, um total de 39.000 casos de malária evitados, num distrito constituído por cerca de 48.888 pessoas que correspondem a 10.695 agregados familiares (dados do Censo do CISM, 2014). Esta experiência, permitiu-nos concluir que é possível baixar rápida e significativamente a transmissão da malária, porém, parece não ser possível elimina-la com as ferramentas actuais, porque tal como defende o Dr. Francisco Saúte, Director do projecto e Director Científico do CISM, “a eliminação da malária resultará do desenvolvimento socioeconómico da sociedade moçambicana como um todo e não necessariamente através de intervenções paliativas.”

Para o Director Científico do CISM, a eliminação da malária geralmente resulta do desenvolvimento humano e da sociedade. Para além disso, o próprio individuo tem que assumir um papel mais activo na protecção individual contra a malaria e haver um envolvimento multissectorial que concorra para uma sociedade mais saudável. Isso irá exigir, uma melhor planificação territorial, gestão ambiental, educação, cidadania, etc. “A título de exemplo, um dos elementos chave que levaram a eliminação da malaria em muitos países europeus, está relacionado com a melhoria da gestão ambiental. Com efeito, na Suíça por exemplo, uma das principais intervenções usadas para combater a malária, foi o alinhamento das margens dos rios sempre que estes atravessassem grandes assentamentos humanos, uma vez que os mosquitos desenvolvem-se nas margens dos rios, a intervenção da Suíça permitiu reduziros focos de reprodução de mosquitos transmissores da malária, contribuindo assim para a redução da doença”.

Outro exemplo mais recente vem do Sri-Lanka, um país insular pobre localizado no extremo sul do sub-continente indiano, que foi declarado livre da malaria pela OMS em 2016. Neste caso, “numa conversa que tive em Genebra com uma antiga chefe do programa da malaria daquele país asiático, ela afirmou que os factores determinantes, que levaram a eliminação da malaria no seu país resultaram de um processo gradual de transformação e desenvolvimento social do meio rural, incluindo o desenvolvimento/empoderamento da mulher rural e não tanto intervenções específicas contra a malaria” comenta o Dr. Saúte.

Por outro lado, segundo o director científico, uma boa organização ou planeamento territorial, pode permitir-nos criar e desenvolver programas e serviços que visam a melhorar a qualidade de vida da população nos principais assentamentos humanos, pois neste sentido, teríamos a distribuição de zonas para a realização de actividade específicas, tal como para prática de agricultura, de indústria, e de habitação, etc. “Portanto, enquanto tivermos sociedades desorganizadas onde em zonas de habitação temos igualmente zonas agrícolas, com regadios não controlados, será difícil eliminar a malária”, afirma o Dr. Francisco Saúte, que acrescenta que “outra questão fundamental tem a ver com a necessidade de desenvolver o conceito de habitação segura, protegida contra a entrada de mosquitos que também pode ter um impacto muito grande na prevenção contra a malária. Por conseguinte, a combinação de todas essas intervenções incluindo medidas específicas de controlo da malária, podem ter um efeito aditivo e nos levar a vencer gradualmente a luta contra a doença.

O espírito integrador que guiou a implementação do Projecto MALTEM, permitiu ao Ministério da Saúde (MISAU), com o apoio do CISM, a criação do Comité Consultivo Técnico para a Malária, órgão cujo objectivo é prestar assessoria técnica e científica ao MISAU, assim como prestar uma assessoria independente ao Programa Nacional de Controlo da Malária em Moçambique, com vista a criação de políticas baseadas em evidências para o controlo e eliminação da malária no país. Este comité consultivo agrega especialistas de áreas que podem contribuir para o controlo e eliminação da malária em Moçambique.

Segundo comenta o Dr. Saúte, “todos sectores devem ser envolvidos, por exemplo, é primordial ter em consideração o sector da educação, porque  devemos educar os indivíduos desde a mais tenra idade sobre o valor cívico das suas acções, educando-os para que adotem certos hábitos e/ou comportamentos que os permita protegerem-se da malária; o sector das obras públicas para que velem pela engenharia sanitária garantido a construção de infra-estruturas que não permitam o surgimento de focos de reprodução de mosquitos; o sector da agricultura para que controlem as zonas de regadio, adotando soluções para que estes não se transformem em locais de reprodução de mosquitos, pois, até então, estas zonas constituem-se muitas vezes em focos de transmissão da malária; o sector da defesa, poderia em tempos de paz usar os militares em causas nobres tal como em grandes intervenções de saúde pública, incluindo acções de gestão ambiental, e outras mais específicas como pulverização intra-domiciliaria, entre outras. Em suma, todos sectores têm um papel preponderante para a eliminação da doença.”

No entanto no que diz respeito ao sector da pesquisa, o Dr. Saúte sugere que devemos encorajar aos jovens investigadores que se interessam pela malária a ler muito mais sobre a história da doença pelo mundo, isto porque, temos relatos de vários casos de sucesso, para que possamos aumentar a massa crítica nacional que entenda mais sobre a matéria, pois na sua opinião, se conseguirmos aumentar a massa crítica moçambicana, e fortalecer aos investigadores com conhecimentos sólidos, estes poderão ter abordagens mais criticas sobre algumas soluções que nos possam ser impostas sem ter em conta o contexto real do pais, mas também poderão ter capacidades para fazer advocacia a quem de direito, de modo que as decisões do governo seja cada vez mais baseadas em evidências científicas.