25 ANOS DE INTERAÇÃO CISM-COMUNIDADE: UM PROCESSO DE APRENDIZADO MÚTUO

Atualizado: 28 de fev.


[Este post é um de uma série de artigos para comemorar o 25º aniversário do CISM]


No contexto de pesquisa biomédica, os membros das comunidades locais são sem dúvida os principais stakeholders da pesquisa. Deste a sua criação, o CISM sempre esteve consciente deste facto, mas levou o seu tempo a aprender como transformar esta forma de pensar centrada na comunidade em acções concretas vinculadas a sua pesquisa.


O que nos fez constatar que a comunidade local é importante?

Num país de baixa renda como Moçambique, e especialmente nas zonas rurais onde os investimentos são menos visíveis, a criação de uma instituição de pesquisa é frequentemente bastante visível e, consequentemente, as expectativas do seu impacto na comunidade são excessivamente elevadas. Um comentário de um membro da comunidade durante as nossas actividades de campo por volta de 2004, ilustra claramente esta percepção: “O CISM vende as nossas amostras, por isso contratou tanta gente ao mesmo tempo e conseguiu comprar tantos carros…”


A pesquisa em saúde é uma atividade que só gera resultados visíveis no longo prazo, muitas vezes impactando gerações que não necessariamente participaram da pesquisa. Portanto, pode ser desafiador demonstrar a correlação entre uma atividade de pesquisa específica e o benefício para a comunidade.

Nossa primeira lição foi que precisávamos manter um diálogo constante com a comunidade para reconstruir o conceito de pesquisa e torná-lo compreensível no contexto local.

A falta de compreensão a esse respeito cria espaço para que os membros da comunidade sejam influenciados pela desinformação sobre a pesquisa. Foi precisamente o que aconteceu em 2003 quando o CISM realizou um ensaio clínico para avaliar a eficácia do tratamento intermitente da malária em crianças menores de um ano na Manhiça. Durante o recrutamento, notamos que um número considerável de pessoas não quis participar do estudo e houve um dia em particular, que não conseguimos recrutar nenhum participante.


Depois de falar com as mães a nível local, percebemos que vários rumores estavam circulando. O que mais me impressionou foi a crença de que o CISM pretendia matar as crianças: “Eles até usam caixas em forma de caixão para medir as crianças para que, quando morrerem, o CISM possa distribuir caixões do tamanho correto”. A “caixa” em questão era um estadiômetro adaptado que é utilizado para medir a altura das crianças como parte do procedimento do estudo. Sem explicação adequada, este dispositivo tornou-se “prova” para apoiar o boato.


Como abordamos os principais desafios encontrados?


No curto prazo, lidamos com os rumores lançando campanhas de informação sobre os estudos do CISM. Também adaptamos certos procedimentos para torná-los menos chocantes culturalmente. Mas ainda faltava um processo contínuo de escuta e feedback com a comunidade.

Por isso, como estratégia de longo prazo, em 2010 decidimos criar uma estrutura sólida e sustentável de participação comunitária: o Conselho Consultivo Comunitário. Este órgão é composto por um grupo diversificado de membros da comunidade que se reúnem regularmente para receber informações sobre a pesquisa do CISM; compartilhar as percepções, preocupações e expectativas da comunidade em relação a esses estudos; e fazer recomendações ao CISM e discutir outras questões relacionadas à pesquisa e à saúde.