ENSAIOS DA VACINA CONTRA A MALÁRIA, IMPULSIONARAM A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA PESQUISA SOCIAL NO CISM

Atualizado: 28 de fev.


Dra. Khátia Munguambe numa actividade de Campo no distrito de Nhamatanda, Sofala

Desde a criação do CISM houve a necessidade de desenvolver uma boa interação social e cultural com as comunidades de forma contínua, uma vez que elas são cruciais para o sucesso da implementação das actividades de pesquisa do Centro. Entretanto, de acordo com Khátia Munguambe, investigadora sénior do CISM, docente na Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane e uma das principais precursoras para a instalação da Unidade de Pesquisa Social (actual Área de Estudos de População) do CISM, a institucionalização da pesquisa social no Centro, foi devido a factos não previstos, que aceleraram a criação de uma linha de pesquisa social e comportamental.


Khátia Munguambe, enfatiza que “quando me juntei ao CISM, acredito que a liderança estava longe de pensar que essa área seria igualmente importante como as outras. No primeiro ensaio da então candidata a vacina da malária que foi realizado na Manhiça, havia uma forte interação entre o investigador principal e as poucas famílias das crianças que haviam sido selecionados para aquela fase, portanto pensou-se que era fácil interagir com a comunidade mesmo em intervenções não muito conhecidas pelas comunidades.


Sucede que, quando eu estava a fazer o meu trabalho sobre saúde ambiental doméstica (higiene, água, saneamento e controle de vectores ao nível dos agregados familiares), uma área nunca explorada no CISM até então e por isso constituía um tema “estranho” (e deve ser por isso que o Dr. Pedro Alonso chamou de partida de “antropologia”, pela sua ligação com a componente social e comportamental), e este trabalho, calha num período em que inicia a preparação para os ensaios de fase II-b e fase III da vacina no CISM. Na altura, tinha acabado de iniciar uma outra intervenção de malária denominada TIP (Tratamento Intermitente Preventivo), dirigido a crianças menores de um ano utentes do PAV (Programa Alargado de Vacinação). A intervenção consistia em avaliar se dando fansidar em intervalos que coincidiam com o calendário de vacinação protegia estas crianças contra a malária. Logo após o seu início, esta intervenção entra em crise, pois, havia muitas recusas e mesmo as mães que tinham aceite participar não faziam o seguimento e usavam todo tipo de técnicas para manterem as suas crianças no Programa Alargado de Vacinação (que era o ponto de recrutamento) sem serem captadas pelo circuito de recrutamento para a intervenção TIP.


Reuniões de pilotagem com líderes locais de Xinavane

Ainda que as recusas e o descrédito nas intenções do CISM estivesse a acontecer no contexto de outra intervenção, era eminente a ameaça desta situação para a fase subsequente do ensaio da vacina de malária que estava prestes a começar e ia envolver milhares de crianças, que eram em parte o mesmo grupo alvo que a intervenção TIP. Neste contexto, a investigadora conta que foi convidada pelo Dr. Pedro Alonso e o Dr. Eusébio Macete, para realizar um estudo que visava compreender as razões das recusas. “Aceitei o desafio, porém, apesar de não ter sido publicado um artigo científico, foi produzido um relatório do trabalho liderado por mim, o qual foi amplamente consumido tanto a nível do CISM como a nível externo. Foi aí que se começou a sentir a necessidade de se institucionalizar a pesquisa social para a realização de ensaios clínicos”, comenta.


O início da institucionalização da Pesquisa Social coincide com o momento em que a Dra. Khátia é convidada (2003) pelo seu professor Robert Pool a nível de doutoramento, para ser assistente do mesmo num estudo ligado ao Tratamento Intermitente Preventivo (TIP) para Malária, um estudo antropológico que foi realizado (2003-2005) no distrito da Manhiça cujo propósito era avaliar os factores relacionados com a aceitabilidade desta intervenção na comunidade. “Foi assim que começou a institucionalização desta componente no CISM, partindo de estudos mais pequenos e depois começamos a crescer e a obter financiamentos para os nossos estudos e pudemo-nos estruturar de forma mais sólida, e saímos de uma unidade para um departamento e mais recentemente, tornamo-nos numa área de coordenação” acrescenta.


A Pesquisa Social no CISM desde a sua institucionalização contribuiu para a aceitabilidade de vários estudos/ensaios não só no distrito de Manhiça, como em outros locais em que o CISM tem expandido as suas actividades. De acordo com a investigadora, dentre várias pesquisas realizadas por esta componente, destaca-se para além dos ensaios sobre a vacina, o projecto sobre a gestão de higiene menstrual que considera que foi um projecto pioneiro no país e que conseguiu trazer ao detalhe, os factores que fazem com que as raparigas se sintam constrangidas para poder ter um bom aproveitamento escolar e com este estudo, levantou-se a hipótese de que mesmo com as adversidades, as meninas fazem um esforço e conseguem ter um bom aproveitamento escolar, porém, há outros factores que fazem com que ela desista da escola, mas não estão directamente ligados a Higiene Menstrual. Entretanto “apesar do sucesso do estudo, ainda não há um movimento que evidencia medidas tomadas para uma adopção das recomendações em pol