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NO ÂMBITO DA MALÁRIA: O MUNDO ESTA PIOR AGORA DO QUE ANTES DA COVID19

Atualizado: 21 de dez. de 2023


Roceador- Realizando a Pulverização Intra-Domiciliária uma das estratégias para o combate à malárioa

A Organização Mundial da Saúde (OMS), publicou a 30 de Novembro, a edição de 2023 do Relatório Mundial da Malária, um documento que fornece uma avaliação abrangente e actualizada das tendências no controlo e eliminação da malária em todo o mundo. Nesta edição, o organismo internacional, destaca que as interrupções de diferentes serviços, no âmbito da luta contra a malária durante a pandemia de COVID-19, fizeram aumentar as taxas de incidência e mortalidade da malária numa altura em que os progressos contra a doença já tinham estagnado. E por via disso, segundo o relatório, tanto em termos de casos, como de mortes por malária, o mundo está agora pior do que antes da pandemia da COVID-19.


Aliás, um artigo publicado em 2022 por pesquisadores do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM) e seus parceiros, já alertava sobre o impacto da COVID -19 nos esforços para a eliminação da malária e na altura, o Director Geral do CISM, Francisco Saúte, defendeu que era fundamental identificar e medir o impacto da interrupção das actividades de combate à malária devido à pandemia, pois, essas evidências poderiam informar as avaliações económicas realizadas a partir de perspectivas mais amplas que poderiam auxiliar nas decisões sobre como e quando retomar as actividades de combate contra a malária depois duma pandemia tão disruptiva como foi a da COVID-19.

Moçambique é o 5º com elevado índice da Malária

De acordo com o relatório em apreço, cinco países (Paquistão, Etiópia, Nigéria, Uganda e Papua Nova Guiné), suportaram o peso destes aumentos, prejudicados por múltiplos desafios, tais como fenómenos meteorológicos extremos, conflitos e crises humanitárias, limitações de recursos, ameaças biológicas e desigualdades. E de forma geral, o número de casos em 2022 foi significativamente mais elevado do que em 2019 (antes da Pandemia), pois, nestes anos o mundo registou 249 e 233 milhões de casos, respectivamente.


Ainda de acordo com o relatório, o número de mortes por malária a nível mundial em 2022 foi superior ao registado em 2019, pois, entre 2000 e 2019, as mortes por malária diminuíram de forma constante (864 000 para 576 000 respetivamente), porém, com o início da pandemia de COVID-19, o número de mortes aumentou em 55 000 em 2020, atingindo 631 000. As reduções marginais nos dois anos seguintes resultaram numa estimativa de 608 000 mortes em 2022, cerca de 32 000 mortes a mais do que antes da pandemia.

Duas novas vacinas foram introduzidas

No mesmo período, a OMS destaca que para além das ferramentas actualmente disponíveis para o controlo da Malária, nomeadamente o Controlo de Vectores, Quimioprevenção e o Manejo de Casos, o organismo recomendou a introdução de duas novas vacinas. A primeira (RTS,S) recomendada em 2021, que visa prevenir a malária em crianças que vivem em regiões com taxas moderadas a elevadas de transmissão da malária por P. falciparum, já alcançou cerca de 2 milhões de crianças, em Ghana, Kenya e Malawi, e os dados na posse da organização, demostram que o RTS,S reduziu as mortes na primeira infância em 13% nos três países. Ainda em relação a primeira vacina, o relatório salienta que pelo menos 28 países da Região Africana da OMS manifestaram interesse em introduzir a vacina contra a malária, dos quais 18 (Moçambique, Benim, Burquina Faso, Burundi, Camarões, República Centro-Africana, Chade, República Democrática do Congo, Gana, Quénia, Libéria, Níger, Nigéria, Malawi, Serra Leoa, Sudão do Sul, Sudão e Uganda), apresentaram pedidos e foram aprovados para receber o apoio da iniciativa GAVI (The Vaccine Alliance) para a implementação desta vacina.



Pela primeira vez se estabelece uma especial interligação entre malária e as mudanças climáticas

É importante destacar que pela primeira vez, este relatório, estabelece uma especial interligação entre malária e as mudanças climáticas, visto que, as mudanças de temperatura, humidade e precipitação podem influenciar o comportamento e a sobrevivência dos mosquitos transmissores da malária, como também, os fenómenos meteorológicos extremos, como as ondas de calor e as inundações, também podem ter um impacto directo na transmissão e na incidência da doença. Em suma, de acordo com a OMS, as mudanças climáticas são uma das muitas ameaças na resposta global à malária. Igualmente, o acesso aos serviços de prevenção, detenção e tratamento da doença, os conflitos e as crises humanitárias, as limitações de recursos e a resistência aos medicamentos e insecticidas são outros desafios que dificultam os progressos.


Os Relatórios Mundiais da Malária da OMS, abordam diversos aspectos relacionados à malária a nível global, cujas informações revelam anualmente as estatísticas globais sobre a incidência, prevalência e mortalidade desta doença em todo o mundo, analisa as tendências ao longo do tempo, destacando áreas com aumento ou redução significativa nos casos de malária, como também, divulga informações sobre as regiões geográficas mais afectadas pela doença. O documento, é composto ainda por informações sobre os grupos demográficos específicos que são mais vulneráveis à malária, como crianças e mulheres grávidas, avalia as estratégias e intervenções utilizadas para controlar a sua transmissão, incluindo o uso de redes mosquiteiras impregnados com insecticida, tratamento com antimaláricos e programas de pulverização residual.


Por outro lado, “esses relatórios são importantes porque, de forma geral, abordam os actuais desafios e/ou obstáculos enfrentados na prevenção, controlo e tratamento da malária, como também, avalia o progresso em relação às metas globais estabelecidas para o controlo e eventual eliminação da malária” comenta, Pedro Aide, Director Científico do CISM e Coordenador da Área de pesquisa em Malária.


As informações epidemiológicas contidas nesses relatórios, são cruciais para entender a carga da doença e direccionar os recursos de forma eficiente, como também, servem como base para o desenvolvimento e ajuste de políticas de saúde pública em níveis nacionais e internacionais. E ao destacar as áreas onde mais pesquisa é necessária, o relatório estimula o avanço contínuo em métodos de prevenção, diagnóstico e tratamento da malária, actividades que o CISM vem desenvolvendo há 27 anos, isto é, desde a sua criação.


De facto, a história do CISM está associada a iniciativa de desenvolvimento da primeira vacina contra malária (RTS,S) que contribuiu para o desenvolvimento de capacidade humana e institucional para pesquisa nesta área.


Referências

  • World malaria report 2023. (2023). Geneva: World Health Organization.

  • Sicuri, E., Ramponi, F., Lopes-Rafegas, I., & Saúte, F. (2022, Maio 13). A broader perspective on the economics of malaria prevention and the potential impact of SARS-CoV-2. Retrieved from Nature Comunications: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9106743/#CR17

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