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OITO EM CADA DEZ MORTES DE CRIANÇAS DE PAÍSES EM VIAS DE DESENVOLVIMENTO PODERIAM SER EVITADAS

Atualizado: 18 de set. de 2023


82% das mortes infantis (crianças menores de 5 anos) em países de baixa renda têm o potencial de ser evitadas, de acordo com os resultados do estudo CHAMPS

Um estudo no âmbito do programa CHAMPS (Child Health and Mortality Prevention Surveillance), implementado em Moçambique nos distritos de Manhiça (Maputo) e Quelimane (Zambézia) pelo Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM) em coordenação com o Instituto Nacional de Saúde (INS), revela que até 82% das mortes infantis (crianças menores de 5 anos) em países de baixa renda têm o potencial de ser evitadas.


A pesquisa ainda demonstra a eficácia das Autópsias Minimamente Invasivas (MITS) na investigação das causas de morte. No estudo ora publicado, a equipa de pesquisadores do estudo, analisou dados de 632 óbitos de crianças entre 1 mês e 5 anos de idade, que ocorreram na comunidade ou em unidades sanitárias dos países em que o projecto é implementado (Serra Leoa, Quénia, Mali, Etiópia, África do Sul e Bangladesh) incluindo Moçambique, entre Dezembro de 2016 a Dezembro de 2020. No estudo, foram combinadas informações das MITS, autópsias verbais e clínicas para determinar as causas de morte.

HIV continua a ser uma das principais causas de mortalidade infantil em alguns países africanos

De acordo com o Investigador Principal do Programa CHAMPS em Moçambique, Inácio Mandomando, o HIV continua a ser uma das principais causas de mortalidade infantil em alguns países africanos com alta carga de infecção, e quase todas essas mortes poderiam ter sido evitadas. Em uma análise adicional, Mandomando destaca que 97% das mortes infantis relacionadas ao HIV estão ligadas a outros processos infecciosos na cadeia causal. Entre essas mortes, as infecções do tracto respiratório inferior, sepse e malária se destacam como as patologias mais comuns, e os patógenos frequentemente associados a essas infecções incluem Citomegalovírus (CMV), Klebsiella pneumoniae e Stretococcus pneumoniae.


Os pesquisadores identificaram a desnutrição como a causa oculta mais comum de morte. Como resposta, de acordo com Inácio Mandomando, o CISM reforçou, em Novembro de 2022, as campanhas ou sessões de treino e demonstrações culinárias nas comunidades do Distrito da Manhiça visando contribuir para a redução de mortes de crianças por desnutrição. E segundo o investigador, “espera-se que as matronas (mulheres experientes e influentes na comunidade) e mães estejam munidas de conhecimentos sobre a nutrição e higiene doméstica para que apliquem estes conhecimentos para melhorar a qualidade de vida das crianças”.

Inácio Mandomando, Principal Investigador do programa CHAMPS em Moçambique
Em áreas com recursos limitados, os dados clínicos e testemunhos (autópsias verbais) são frequentemente empregues para identificar as causas de morte

A pesquisa revela ainda que 99% das mortes globais do grupo-alvo em análise, ocorrem em países de baixa e média renda. Quique Bassat, pesquisador do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e do CISM, afirma que "para prevenção dessas mortes, é fundamental compreender suas causas, mas o desafio reside na falta de dados confiáveis". Em áreas com recursos limitados, os dados clínicos e testemunhos (autópsias verbais) de familiares, cuidadores ou encarregados de educação, são frequentemente empregues para identificar as causas, contudo, esses dados não oferecem detalhes suficientes.

É crucial fazer uma distinção entre as causas subjacentes e as causas imediatas da morte

Bassat, defende ainda que é crucial fazer uma distinção entre as causas subjacentes (doenças ou lesões que iniciaram a cadeia de eventos mórbidos e levaram direta e inevitavelmente à morte) e as causas imediatas da morte (circunstâncias que antecedem imediatamente a ocorrência da morte). Explica ainda que essa diferenciação é de significativa importância, uma vez que a morte muitas vezes surge da complexa interacção entre diversas condições.


Os resultados do estudo abrem um leque de oportunidades para desenvolver intervenções específicas de alto impacto. Quique Bassat destaca que “somente 25% das mortes resultaram de uma única causa todas as outras são originadas por uma interação complexa de diversos fatores. Portanto, é importante considerar toda a sequência de eventos que levam à morte, indo além da causa imediata, a fim de conceber estratégias preventivas mais eficazes”.


Para além disso, os resultados demonstram ainda o potencial e fiabilidade das MITS, como ferramenta para investigar as causas de morte infantil, proporcionando oportunidades concretas de acção para aumentar a sobrevivência infantil. Esta técnica (MITS), foi validada por investigadores do ISGlobal, em parceria com o CISM e o Hospital Central de Maputo, e nos últimos anos tem sido usado para a análise das mortes ocorridas na comunidade, oferecendo informações valiosas sobre como prevenir óbitos que não são registados pelo sistema de saúde.


Referências

Bassat Q, Blau DM, Ogbuanu IU et al. Causes of death among infants and children in the Child Health 1 and Mortality Prevention Surveillance (CHAMPS) Network. JAMA Network Open. July 2023. doi:10.1001/jamanetworkopen.2023.22494

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