QUESTÕES POLÍTCAS CONSTITUEM UM DESAFIO PARA A IMPLEMENTAÇÃO DO CHAMPS EM QUELIMANE


Edú Namarrogolo, Oficial de Ligação com a Comunidade
Edú Namarrogolo, é Oficial de Ligação com a Comunidade do projecto CHAMPS em Quelimane, província da Zambézia, de 33 anos de idade é licenciado em ensino de filosofia com qualificações para o ensino de história, pela Universidade Pedagógica de Moçambique. Edú, chega no CISM em 20218 e trabalha primeiro como Mobilizador no projecto CHAMPS.

  1. Fale-nos de si e do seu percurso profissional

Bom, eu nasci no distrito da Maganja de Costa, mas cresci no distrito de Quelimane. Quanto a minha trajectória profissional, inicia em 2006 no distrito de Lugela, como professor de ensino primário. Após dois anos, decidi dar continuidade aos estudos e retorno à Quelimane para o efeito. Enquanto fazia a licenciatura, tive a oportunidade de retornar a Lugela e consequentemente interromper os estudos, onde trabalhei como facilitador comunitário, na FGH (Friends in Global Health). Findo o contrato, retornei a Quelimane, e dei continuidade aos estudos e posteriormente, tive outra oportunidade para trabalhar como supervisor na RAVI (Rede para assistência de vítima das minas). Em 2018, com a licenciatura já concluída, vim ao CISM, inicialmente como mobilizador, e meses depois, fui convidado a desempenhar a função de Oficial de ligação com a comunidade.


2. Foi dos primeiros mobilizadores do CISM em Quelimane, que desafios enfrentaram no inicio das actividades neste distrito?

Se calhar, dizer que a mobilização envolve a sensibilização das comunidades, seguindo os protocolos do estudo e o resumo das mensagens desse protocolo para que as comunidades possam compreender os objectivos do projecto. Ligado a este trabalho, tive como principal desafio fazer chegar a mensagem do programa CHAMPS a uma comunidade que outrora nunca havia sido abordada uma mensagem similar, relacionada com as causas de morte, um tema tão sensível. Algumas comunidades no princípio rejeitavam o projecto, associando-o a outros problemas que já tiveram, por exemplo, pensava-se que neste projecto, iriamos retirar os órgãos das crianças, isto baseado num mito que foi registado aqui em Quelimane com a eclosão da cólera, onde as comunidades chegaram até a fazer greve no Centro de Tratamento de Cólera, alegando que os técnicos de saúde retiravam órgãos dos corpos dos seus entes queridos que perdiam a vida com a cólera e por essa razão cobria-se o corpo.

Mas também, tínhamos desafios de chegar aos diversos pontos do distrito, porque inicialmente não tínhamos transporte aqui em Quelimane e por isso, percorríamos longas distancias a pé.


3. Actualmente, acha que a comunidade apoia o projecto CHAMPS?

Eu penso que já conseguimos granjear muita simpatia das comunidades e consequente apoio ao projecto e com a implementação do projecto, várias causas de morte foram explicadas às comunidades, e um dos grandes resultados que temos estado a disseminar é que as próprias comunidades assumiram que este projecto está a ajudar a esclarecer o porquê uma criança terá perdido a vida e tem contribuído para a redução dos casos de suspeita de feitiçaria que resultou na morte dos seus entequeridos.

Neste processo, tivemos desafios em localidades como Madal e Marrongane, onde inicialmente a comunidade recusava o projecto questionando a necessidade de conhecer as causas de morte, ou seja, que nós só nos preocupávamo-nos com os corpos e não com as crianças enquanto doentes, porém, fizemos um trabalho intenso com essas comunidades, explicando que conhecendo as causas de morte de uma criança, podemos evitar casos futuros, e que inclusive pode ser uma doença que os próprios pais são portadores.


4. O distrito de Quelimane é muito grande, como têm feito o vosso trabalho?

Realmente o distrito é muito grande, há casos por exemplo que temos que caminhar mais de 8 Km devido às vias de acesso. Quando vamos a estes locais, envidámos esforços para não comprometer o nosso trabalho e como sabe, nessas comunidades geralmente nem há restaurantes e quando é assim, em muitos casos acabamos por confeccionar as nossas refeições na casa dos líderes comunitários.

Mas também, em alguns períodos há uma necessidade de trabalharmos aos finais de semana, como actualmente que é o tempo de colheita do arroz, e por ser difícil encontrar os chefes dos agregados familiares durante a semana, optamos por visitas aos finais de semana.


5. Que aprendizado teve até então, resultando do seu trabalho?

Primeiro é que a interacção diária com os líderes comunitários e com a comunidade de forma geral, permitiu-me ver a vida desde outro ângulo, diferente do estilo de vida da urbe onde cresci. Portanto, cada dia vamos aprendendo novas coisas. Mas também em termos de procedimentos, venho aprendendo muita coisa, desde as reuniões comunitárias, vigilância de rumores, entrega dos resultados, até a própria gestão da equipa de mobilizadores.