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RASTREIO DO SARS-COV-2 EM MOÇAMBIQUE: O USO DA VIGILÂNCIA GENÓMICA


Um estudo de ponta de vigilância genómica em Moçambique revela a proveniência das variantes Beta (a partir de migrações regionais) e Delta (a partir de migrações internacionais) e conclui que esta última variante, foi a que mais contribuiu para a pandemia local.


Um estudo co-liderado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), o Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM) e o Instituto de Biomedicina de Valência (IBV), utilizou tecnologia de sequenciação de ponta e análise filogenética para estudar a segunda e terceira vaga de COVID-19 em Moçambique. Os resultados, publicados na revista Lancet Global Health, mostram que a variante Beta do SARS-CoV-2 chegou principalmente da África do Sul, enquanto que a principal origem da variante Delta foi o Reino Unido e a Índia, para além da África do Sul.


Desde o início da pandemia, os esforços globais para sequenciar o SARS-CoV-2 geraram uma quantidade de dados sem precedentes (mais de 15 milhões de sequências carregadas no servidor de partilha de dados, denominado GISAID até à data). Esta informação tem sido crucial para compreender a evolução do vírus e o potencial impacto nas vacinas e noutras medidas de saúde pública. No entanto, a origem das amostras sequenciadas tem sido muito desigual: em muitas regiões do mundo, a amostragem tem sido insuficiente, dificultando a vigilância genómica global e local.

Em Moçambique tínhamos muito pouca informação sobre as variantes virais que circularam durante as diferentes vagas da COVID-19...

"A maioria dos países africanos, com excepção da África do Sul, comunicou um número muito reduzido de sequências. Por exemplo, em Moçambique tínhamos muito pouca informação sobre as variantes virais que circularam durante as diferentes vagas da COVID-19, ou de onde vieram e quando", diz Alfredo Mayor, investigador do ISGlobal e do CISM.


Neste estudo, uma equipa liderada por Mayor, Inácio Mandomando (CISM), Iñaki Comas (IBV) e Mariana López (IBV), sequenciou o genoma do vírus a partir de amostras de doentes sintomáticos do sul de Moçambique, recolhidas durante a segunda e terceira vaga da COVID-19. Os objectivos do estudo eram quantificar o número de vezes que as diferentes variantes do vírus foram introduzidas no país, identificar a sua origem e avaliar em que medida contribuíram para alimentar a pandemia a nível local. A equipa de investigação utilizou uma nova ferramenta computacional (UShER) para comparar as sequências geradas com mais de sete milhões de sequências publicadas.

Photo: Canva (via Isglobal)
Beta resultado de migrações regionais e Delta de internacionais

Os resultados confirmam que a grande maioria das cerca de 1.000 sequências de Moçambique analisadas neste estudo correspondem à variante Delta (que dominou na terceira vaga, entre Junho e Setembro de 2021), seguida da Beta (que dominou na segunda vaga, entre Janeiro e Março de 2021), embora tenham sido também identificadas outras variantes que não tinham sido reportadas em Moçambique (como a AY.37 e a C..1.2) ou mesmo em África (como a AY.29).


A análise revelou 190 introduções independentes da variante Beta ao longo de sete meses, a grande maioria proveniente da África do Sul, o país vizinho de onde se crê que a variante Beta surgiu. A variante Alfa, que era dominante na Europa na altura, não foi detectada. Em contrapartida, a Delta chegou a Moçambique mais rapidamente (a maior parte das 220 introduções separadas ocorreu ao longo de quatro meses) e de mais longe: Reino Unido e Índia, mas também da África do Sul. O delta rapidamente ultrapassou o beta, devido à sua maior transmissibilidade e maior transmissão comunitária. Os resultados indicam também que a maioria das introduções, quer de beta quer de delta, não gerou descendência. Apenas uma fracção delas contribuiu para a propagação local do vírus.

A COVID-19 foi transmitida em Moçambique a partir de migrações regionais...

"Podemos concluir que a COVID-19 foi transmitida em Moçambique a partir de migrações regionais (para o beta) e internacionais (para o delta)", explica Inácio Mandomando, coordenador da Área de Doenças Bacterianas, Virais e Outras Doenças Tropicais Negligenciadas do CISM.


"Chegámos a estas conclusões porque o nosso estudo compara sequências virais de Moçambique com todos os dados disponíveis a nível mundial; esta abordagem permite-nos minimizar o enviesamento na inferência da origem das variantes", diz Iñaki Comas, investigador principal da Unidade de Genómica da Tuberculose (IBV).


Estes resultados questionam a relação custo-benefício de tais medidas em situações de porosidade fronteiriça, como é o caso de Moçambique. "As restrições à circulação e o encerramento das fronteiras provavelmente impediram ou atrasaram em grande medida a introdução de variantes provenientes de países não africanos, mas foram insuficientes para impedir a entrada do vírus dos países vizinhos", conclui López, investigador da Unidade de Genómica da Tuberculose do IBV.

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