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DIA MUNDIAL DO MOSQUITO: REFLEXÕES SOBRE A CONTRIBUIÇÃO DO CISM PARA A VIGILÂNCIA VECTORIAL

20 de ago. de 2025
4 min de leitura
Técnico de Entomologia do CISM, Albino Vembane, Segurando uma armadilha para captura de mosquitos
Técnico de Entomologia do CISM, Albino Vembane, Segurando uma armadilha para captura de mosquitos

O Dia Mundial do Mosquito, celebrado a 20 de Agosto, assinala a descoberta histórica de Sir Ronald Ross, em 1897, de que os mosquitos do género Anopheles são responsáveis pela transmissão da malária. Esta data representa uma oportunidade para refletir sobre o papel destes insectos como vectores de doenças e sobre a importância das acções de prevenção e controlo.


Embora a malária continue a ser o foco central do debate, os mosquitos estão implicados na transmissão de várias outras doenças que afetam gravemente a saúde pública, incluindo dengue, zika, chikungunya, febre amarela e filariose linfática. A sua presença e proliferação são influenciadas por factores como alterações climáticas, urbanização desordenada, deslocações populacionais e resistência a insecticidas, criando um cenário complexo para o seu controlo.


Neste contexto, a vigilância vectorial assume um papel crítico. Trata-se do conjunto de actividades sistemáticas para detectar, monitorizar e analisar populações de vectores, identificando espécies, acompanhando a sua distribuição geográfica, medindo a sua densidade, comportamento e resistência a inseticidas, e avaliando a sua capacidade de transmitir patógenos. Informação é vital para: antecipar e responder rapidamente a surtos; orientar políticas de saúde pública e estratégias de prevenção; optimizar o uso de recursos e ferramentas de controlo; e garantir intervenções mais eficazes e sustentáveis.


O Centro de Investigação em Saúde da Manhiça (CISM), fundado em 1996, estabeleceu-se como um centro de excelência em investigação biomédica em Moçambique e no cenário internacional. Ao longo dos seus quase 30 anos, a sua estratégia concentrou-se em encontrar soluções para as principais doenças transmissíveis que afectam o país.


No campo da entomologia e vigilância vectorial, o CISM deu um salto qualitativo em 2014 com o lançamento do Programa MALTEM, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e pela Fundação Bancária “la Caixa”, que permitiu criar um laboratório de entomologia moderno e totalmente funcional.


Desde então, a unidade tem desenvolvido um trabalho contínuo de monitorização das populações de mosquitos vectores, conduzindo estudos de resistência a inseticidas que orientam a escolha de produtos para campanhas nacionais. Avalia regularmente a eficácia e a durabilidade de redes mosquiteiras e da pulverização intradomiciliar (PIDOM), além de mapear a distribuição e a abundância das diferentes espécies, incluindo vectores emergentes como Anopheles stephensi. Integra dados entomológicos com padrões de comportamento humano para optimizar estratégias de protecção e investe na capacitação de técnicos e investigadores moçambicanos, assegurando a sustentabilidade desta área de conhecimento.


O Centro mantém ainda colaborações com instituições nacionais e internacionais, como o ISGlobal, a Arizona State University e o consórcio INFRARED – este último dedicado ao desenvolvimento de tecnologias inovadoras de análise rápida e de baixo custo, baseadas em espectroscopia de infravermelhos e inteligência artificial para avaliar indicadores entomológicos.


Processo de criação de Mosquitos
Processo de criação de Mosquitos

A produção científica do CISM em vigilância vectorial resultou em contributos concretos para políticas e práticas de saúde pública. Estudos de resistência de vectores a inseticidas revelaram resistência a piretróides e carbamatos, mas não ao Actellic nem ao DDT, informação que orientou a escolha de produtos pelo Programa Nacional de Controlo da Malária (PNCM). Avaliações do efeito residual da pulverização intradomiciliar demonstraram que o Actellic mantém eficácia por até seis meses, recomendando-se a repetição das campanhas após esse período para garantir proteção contínua.


No que respeita à durabilidade das redes mosquiteiras, verificou-se que, dois anos após a distribuição, apenas metade estava em bom estado, 30% podiam ser reparadas e 20% precisavam de substituição imediata — dados fundamentais para planear reposições e manutenção. No âmbito do Projecto Magude, a combinação de tratamento de massas, pulverização intradomiciliar e redes mosquiteiras permitiu reduzir em 86% a prevalência da malária entre 2015 e 2018. Estudos sobre o comportamento de picada dos mosquitos mostraram que muitas ocorrem antes de as pessoas se deitarem, tanto dentro como fora de casa, evidenciando a necessidade de ferramentas adicionais ao uso de redes. Paralelamente, o trabalho de interação com as comunidades foi essencial para superar resistências e mal-entendidos, reforçando a participação e a confiança nos projectos.


Estes resultados influenciaram directamente decisões nacionais e foram partilhados com organismos internacionais, contribuindo para a actualização de diretrizes da Organização Mundial da Saúde.

No entanto, apesar dos progressos alcançados, a luta contra as doenças transmitidas por mosquitos continua a enfrentar obstáculos significativos. A resistência crescente a insecticidas compromete a eficácia das ferramentas tradicionais, enquanto as alterações climáticas modificam os padrões de reprodução e distribuição dos vectores. Soma-se a necessidade de integrar a vigilância vectorial e epidemiológica para permitir respostas mais rápidas e direcionadas, bem como o risco de subdetecção de doenças transmitidas por mosquitos do género Aedes. A escassez de entomologistas qualificados no país reforça a urgência de investimentos contínuos em capacitação.


Para enfrentar esses desafios, o CISM planeia ampliar a sua actuação com a adopção de novas tecnologias de vigilância, incluindo sistemas automatizados de análise de mosquitos, a expansão das suas instalações laboratoriais e o fortalecimento da colaboração com redes de investigação regionais e globais. Paralelamente, continuará a formar a próxima geração de especialistas moçambicanos, garantindo que a experiência e o conhecimento acumulados nas últimas décadas sejam preservados e aprofundados.


O Dia Mundial do Mosquito é um lembrete de que, apesar dos avanços, estes insectos continuam a ser uma ameaça séria e persistente à saúde pública. A experiência do CISM mostra que a vigilância vectorial é mais do que um instrumento técnico — é uma estratégia fundamental para antecipar riscos, proteger comunidades e salvar vidas.


Investir nesta área é investir no futuro: um futuro em que a ciência, a inovação, a colaboração internacional e o envolvimento comunitário se unem para que os mosquitos deixem de ser vectores mortais.


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