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NOVO ARTIGO CONTA O PROCESSO DA IMPLEMENTAÇÃO DE UM SISTEMA DE VIGILÂNCIA DE MORTALIDADE INFANTIL EM QUELIMANE

Hospital Central de Quelimane, um dos locais de implementação do CHAMPS
Hospital Central de Quelimane, um dos locais de implementação do CHAMPS

Um artigo recentemente publicado pelo Investigador Sénior do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), Inácio Mandomando, descreve o processo de implementação de um sistema inovador de vigilância de mortalidade infantil no distrito de Quelimane, província da Zambézia, região centro de Moçambique. A iniciativa é conduzida pelo CISM, em colaboração com o Instituto Nacional de Saúde (INS) e outros parceiros, com financiamento da Fundação Gates. Desde 2016, iniciativa decorre no âmbito do programa CHAMPS (Child Health and Mortality Prevention Surveillance), uma plataforma internacional que visa compreender, com maior precisão, as causas de morte em crianças menores de cinco anos em áreas de elevada mortalidade na África Subsaariana e no Sul da Ásia.


Uma das principais inovações do CHAMPS é a utilização da técnica de recolha de Tecidos Minimamente Invasiva (MITS - do inglês, Minimally Invasive Tissue Sampling). Esta metodologia permite a recolha pós-morte de amostras de tecidos e fluidos corporais essenciais para análises laboratoriais e patológicas detalhadas. Diferentemente da autópsia completa, a MITS é menos invasiva, o que favorece a aceitação social e respeita, na medida do possível, as crenças e tradições culturais das comunidades.


Segundo o artigo, para assegurar a eficácia da vigilância, foram estabelecidos pontos de vigilância hospitalar e comunitária, responsáveis por documentar todos os óbitos de crianças menores de cinco anos e natimortos nas áreas abrangidas. Um elemento crítico do processo é a abordagem às famílias nas primeiras 36 horas após o falecimento, período em que é solicitado o consentimento informado para a realização da MITS e dos demais procedimentos investigativos padronizados.


Em Moçambique, o programa foi inicialmente implementado no distrito de Manhiça (2016), tendo posteriormente sido expandido para Quelimane (2018), reforçando a capacidade nacional de vigilância e investigação das causas de mortalidade infantil. Para Mandomando, “em Quelimane, o Hospital Central da cidade foi escolhido como o local mais adequado para implementação das MITS, por se tratar de um hospital de referência, equipado com laboratórios básicos de patologia e bacteriologia, e localizado numa província com elevada prevalência de malária (34,9%) e HIV (17,1%) entre a população adulta – factores associados a altas taxas de mortalidade infantil”.


O autor destaca ainda que, para viabilizar a implementação, foi necessário realizar actividades de engajamento comunitário, tendo em conta a diversidade sociocultural da região e a existência de mitos e rumores que poderiam comprometer a aceitação da técnica.


Inácio Mandomando, Principal Investigador do CHAMPS em Moçambique
Inácio Mandomando, Principal Investigador do CHAMPS em Moçambique
Processo rigoroso de envolvimento comunitário

O envolvimento da comunidade foi conduzido de forma estruturada e rigorosa. Investigadores do CISM, do INS e do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) realizaram missões à província, promovendo encontros com líderes governamentais, autoridades hospitalares, representantes da sociedade civil, partidos políticos e líderes comunitários e religiosos, incluindo médicos tradicionais e matronas. Estas reuniões tinham como objectivo informar e esclarecer sobre a metodologia do CHAMPS e da MITS, enfatizando a natureza minimamente invasiva do procedimento, a sua segurança e os benefícios da investigação para a saúde infantil na comunidade.


Fortalecimento das capacidades hospitalares e laboratoriais

O sucesso do programa dependeu igualmente do fortalecimento das capacidades hospitalares e laboratoriais. Antes da introdução das MITS, o HCQ não dispunha de um sistema abrangente de vigilância de mortalidade, nem laboratórios com capacidade para determinar, com precisão, a contribuição de agentes patogénicos nas causas de morte.


A implementação apoiou-se na experiência prévia da iniciativa COMSA (Countrywide Mortality Surveillance for Action), em curso no país desde 2018. Com base nessa experiência, foram implementados sistemas de notificação de óbitos em 24 horas, criados call centers para notificação imediata de mortes, visitas regulares de supervisão e programas de formação para profissionais hospitalares e laboratoriais em boas práticas clínicas, biossegurança e procedimentos da MITS.


Paralelamente, os laboratórios de bacteriologia e histopatologia do HCQ foram significativamente reforçados, com aquisição de equipamentos essenciais – incluindo congeladores, geleiras, incubadoras, cabines de biossegurança e microscópios –, bem como reagentes e consumíveis. Foram igualmente realizadas melhorias no sistema eléctrico, garantindo funcionamento contínuo das infraestruturas.


Adicionalmente, foram implementados sistemas de garantia de qualidade, procedimentos operacionais padronizados e programas avançados de capacitação para os técnicos de laboratório, incluindo intercâmbios formativos com o CISM, em Manhiça, e com hospitais e centros de pesquisa em Espanha. Estas medidas contribuíram para aumentar a fiabilidade das análises microbiológicas e patológicas, reduzir o tempo de entrega de resultados e garantir maior rigor científico nos diagnósticos.


Actualmente, a rede CHAMPS está estabelecida em sete países africanos – Etiópia, Quénia, Mali, Moçambique, Nigéria, Serra Leoa e África do Sul – e em dois países do Sul da Ásia, Bangladesh e Paquistão.


Referência:

Mandomando I, Cossa A, Messa A Jr, Sitoe A, Vitorino P, Magaço A, Mabunda R, Macanze A, Miguel J, Figueiredo I, Amouzou A, Black R, Kante AM, Xerinda E, Massora S, Garrine M, Chirinda P, Assane P, Macicame I, Jordao D, Suade L, de Assis CM, Massinga A, Maixenchs M, Nhacolo A, Munguambe K, Mutevedzi P, Breiman RF, Whitney CG, Blau DM, Garel M, Ordi J, Rakislova N, Bassat Q. Introducing Minimally Invasive Tissue Sampling to Ascertain Cause of Death in Children and Stillbirths in Central Mozambique. Am J Trop Med Hyg. 2026 Feb 3:tpmd250253. doi: 10.4269/ajtmh.25-0253. Epub ahead of print. PMID: 41666426.


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