OS DESAFIOS DA MULHER NA PESQUISA EM MOÇAMBIQUE

Atualizado: 9 de nov. de 2021


[Este artigo, foi inscrito pela equipa de Comunicação do CISM no âmbito de um Webinar interno, denominado Conversas.com]


Esperança Sevene, Investigadora Sénior

Filha de pais originários da província de Inhambane, cujo pai era proveniente do distrito de Morrumbene e a mãe da cidade de Inhambane, foi educada na cultura bitonga e Ronga e por isso entende e fala moderadamente as duas línguas. Chama-se Esperança Sevene, que se define como docente, investigadora, mas também, como mãe e esposa. É doutorada em medicina pela Universidade de Barcelona, docente de farmacologia na Faculdade de Medicina, na Universidade Eduardo Mondlane em Moçambique, e é Investigadora Sénior do CISM.


Questionada sobre a equidade do género e os desafios que a Mulher enfrenta na pesquisa, Sevene, defende que ainda existem muitos desafios para a mulher e reconhece que durante muito tempo pensava que eram apenas a nível interno (de Moçambique ou de África) devido às tradições e/ou culturas locais, mas, trabalhando na pesquisa em saúde global, percebeu que os desafios são globais, pois em qualquer parte do mundo, sempre exige-se às mulheres que sejam muito melhores do que a sua contraparte, os homens.


Por outro lado, o facto de ser africana, também é um desafio que toda mulher tem que superar perante outras mulheres do globo. E segundo ela,

“já estive em várias situações em que era a única africana, negra, num grupo que deve dar recomendações, e perguntei-me muitas vezes: será que serei ouvida? Por ser mulher, africana e sobretudo de raça negra? Mas depois, fui-me apercebendo que para além do conhecimento, temos que ser totalmente comunicativas para podermos fazer vincar as nossas ideias ou opiniões e assim conseguirmos atrair a atenção dos outros e ser ouvidas”.

Para Sevene, ainda há desafios no que concerne a equidade de género, tendo como base a forma como as decisões são tomadas nos vários sectores e órgãos de governação do nosso país e região. No entanto, ela sugere que a melhor forma de ultrapassar esses desafios é “nós mesmas, as mulheres, sermos trabalhadoras para que a sociedade possa entender o nosso valor, não simplesmente porque somos mulheres, mas porque temos o conhecimento e somos capazes de responder positivamente aos desafios que nos forem colocados”. Porém, reconhece que as mulheres deverão empreender esforços a dobrar para que possam alcançar isso, o que é uma desvantagem e injusto.


 

Nós mesmas, as mulheres, sermos trabalhadoras para que a sociedade possa entender o nosso valor, não simplesmente porque somos mulheres, mas porque temos o conhecimento e somos capazes de responder positivamente aos desafios que nos forem colocados.

 

Sevene, defende que como moçambicanos devemos nos orgulhar, pois temos um contexto permissivo para a pesquisa e temos tido um avanço excepcional na realização da pesquisa no país, e destaca o papel do fundo nacional de pesquisa que ajudou muito e acredita que pode contribuir mais. Acrescenta também que, muitas universidades têm alocado fundos para financiar a pesquisa. Porém, referiu que um dos grandes desafios que prevalecem para a realização da pesquisa em Moçambique e em África está relacionada aos mecanismos de financiamento da pesquisa; torna-se necessário reverter o cenário, pois, no modelo actual de financiamento, somos dependentes dos nossos parceiros que acabam determinando o que podemos fazer, e isto faz com que não tenhamos a devida autonomia na escolha dos nossos temas de pesquisa. Portanto, seria bom termos mais investimentos internos destinados a pesquisa para que possamos competir a nível internacional com ideias de pesquisa que respondem mais ao nosso interesse local.


Concluiu afirmando que ser investigadora do CISM, permitiu-a ter um networking com outros investigadores e parceiros, o que a ajudou a desenvolver e crescer na área de saúde global, mas também, teve muito apoio dos meus mentores e supervisores.



BIOGRAFIA DE ESPERANÇA SEVENE

Nasceu em Maputo, filhade pais originários da província de Inhambane, o pai do distrito de Morrumbene e a mãe da cidade de Inhambane, foi educada na cultura bitonga e ronga. Seus pais eram muito religiosos particularmente a mãe por isso que ela e seus irmãos foram educadas segundo a doutrina cristã.


Fez os seus estudos primários na actual Escola Primária 7 de Setembro, que na altura tinha duas alas a feminina e masculina e a primeira, chamava-se Dona Leonor de Sá Sepúlveda. Depois passou pelas Escolas Secundárias da Polana (5ª à 6ª Classe), Josina Machel (7ª à 9ª Classe) e Francisco Manyanga (10ª à 11ª classe). Nesta altura, na escola secundária tinham actividades de férias, onde eram realizados estágios em empresas, fábricas, entre outros locais, nesta ocasião, teve a oportunidade de realizar actividades de férias na fisioterapia do Hospital Central de Maputo (HCM). Este estágio, contribuiu para que quando chegou o momento de escolher o curso não tivesse dúvidas que pretendia seguir medicina, numa altura que não eram realizados exames de admissão, mas sim entrevistas vocacionais para escolherem o curso que pretendiam seguir.


Terminado o curso, em 1993, enquanto aguardava pela colocação, pediu para estar na enfermaria de cardiologia do HCM. No mesmo ano, o Director da Faculdade de Medicina, constatou que havia uma carência de docentes a tempo inteiro naquela faculdade e propôs ao Ministro de Saúde na altura, que uma parte dos médicos recém graduados fossem convidados a permanecer na faculdade a dar aulas. Nesta altura, ela foi uma das convidadas para fazer parte deste grupo e graças ao apoi