Resultados do BOHEMIA reforçam evidências sobre a segurança da ivermectina no início da gravidez
- Nercio Machele

- há 33 minutos
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Um estudo realizado no âmbito do projecto BOHEMIA (Broad One Health Endectocide-based Malaria Intervention in Africa) apresentou novos dados sobre a segurança da ivermectina durante as primeiras semanas de gravidez.
Os resultados indicam que as mulheres expostas à ivermectina no período próximo da concepção não apresentaram um aumento significativo do risco de aborto espontâneo, nado-morto ou malformações congénitas graves, quando comparadas com mulheres que receberam albendazol. Financiado pela Unitaid e implementado em Moçambique pelo Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), o projecto BOHEMIA foi liderado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) em colaboração com o CISM e outras instituições parceiras.
O estudo foi publicado na revista científica eClinicalMedicine constitui a maior coorte prospectiva realizada até ao momento com mulheres expostas à ivermectina nas primeiras semanas de gravidez, contribuindo para ampliar a evidência científica disponível sobre o uso deste medicamento durante esse período.
Investigação realizada em Moçambique e no Quénia

O projecto BOHEMIA foi desenvolvido para avaliar o potencial da administração em massa de ivermectina como estratégia complementar para reduzir a transmissão da malária. Em Moçambique, as actividades foram implementadas no distrito de Mopeia, na província da Zambézia, onde decorreram as intervenções e o acompanhamento das participantes no âmbito do ensaio clínico.
Para gerar novas evidências sobre a segurança do medicamento, os investigadores acompanharam uma coorte prospectiva integrada nos ensaios BOHEMIA realizados em Moçambique e no Quénia. O estudo incluiu mulheres que engravidaram entre duas semanas antes e quatro semanas após terem recebido ivermectina ou albendazol, utilizado como medicamento de comparação. Todas as participantes foram acompanhadas mensalmente até ao final da gravidez.
Segundo Patricia Nicolas, investigadora do ISGlobal e do CISM e primeira autora do artigo, foram incluídas 238 mulheres, das quais 129 tinham sido potencialmente expostas à ivermectina e 109 ao albendazol. “Entre as participantes com desfecho da gravidez conhecido, resultados adversos incluindo aborto espontâneo, nado-morto ou malformações congénitas graves, ocorreram em 22,9% das mulheres expostas à ivermectina e em 19,5% das mulheres expostas ao albendazol. A diferença entre os dois grupos não foi estatisticamente significativa”, explicou.
Cuidados pré-natais associados a melhores desfechos
O estudo observou igualmente que as mulheres que apresentaram desfechos adversos tinham menor probabilidade de ter recebido cuidados pré-natais e medidas preventivas recomendadas durante a gravidez. Entre essas medidas incluem-se a suplementação com ferro e ácido fólico, o uso de redes mosquiteiras tratadas com insecticida e o tratamento preventivo contra a malária. “Contudo, alertamos que as mulheres que sofrem perdas gestacionais muito precoces podem ter menos oportunidades de frequentar consultas pré-natais”, acrescentou Patrícia Nicolás.
Para o Director-Geral do CISM, Francisco Saúte, os resultados demonstram a importância da investigação científica conduzida em contextos africanos para responder a questões prioritárias de saúde pública. “Embora os resultados não mostrem um aumento significativo do risco de desfechos adversos associado à exposição à ivermectina no início da gravidez, é fundamental continuar a gerar conhecimento através de estudos robustos que permitam orientar futuras recomendações baseadas na evidencia cientifica”, afirmou.
Por sua vez, Carlos Chaccour, co-investigador principal do BOHEMIA, considera que os resultados reforçam a evidência disponível sobre a segurança da ivermectina durante as primeiras semanas de gravidez. “No entanto, o número de casos documentados continua a ser limitado para permitir alterações às recomendações clínicas ou regulamentares. São necessários mais estudos e sistemas de vigilância que permitam consolidar estes dados”, destacou.
Uma abordagem baseada em Saúde Única
O projecto BOHEMIA assenta na abordagem One Health (Saúde Única), reconhecendo a relação entre a saúde humana, animal e ambiental. A investigação partiu da premissa de que os mosquitos estão a mudar os seus padrões de comportamento – evitando o contacto com redes mosquiteiras e paredes tratadas com insecticidas, preferindo picar no exterior das casas, alterando os seus horários de maior actividade e alimentando-se de sangue de animais.
Esta notícia foi elaborada com base na publicação original do ISGlobal sobre os resultados do estudo desenvolvido no âmbito do projecto BOHEMIA.Referências
Nicolas P, Mundaca H, Brazeal A, Houana A, Ngama M, Macucha A, Matano A, Elobolobo E, Vegove V, Martinho S, Kariuki M, Mbanze J, Mitora S, Montañà J, Ringera I, Túnez L, Imputiua S, Munguambe H, Mutepa V, Soares A, Xerinda A, Materrula F, Ruiz-Castillo P, Onyango T, Casellas A, Rudd M, Jones C, Maia M, Mwangangi J, Rabinovich R, Saute F, Chaccour C. Risk of adverse pregnancy outcomes following inadvertent exposure to ivermectin during the periconception period: findings from two cluster-randomized trials in Mozambique and Kenya. EClinicalMedicine. 2026 Jul 14;97:104069. doi: 10.1016/j.eclinm.2026.104069. PMID: 42518939; PMCID: PMC13382460.

