ANÁLISE DOS ÚLTIMOS 17 ANOS REVELA DADOS IMPORTANTES SOBRE A FEBRE NA MANHIÇA
- Nercio Machele

- 18 de dez. de 2025
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O estudo resulta da análise de dados de mais de 664 mil consultas externas e cerca de 23 mil internamentos de crianças menores de 15 anos. Uma análise de dados dos últimos 17 anos, realizada por investigadores do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), em colaboração com parceiros nacionais e internacionais, apresenta dados importantes sobre os padrões epidemiológicos, factores de risco, diagnóstico e mortalidade infantil relacionados à febre no distrito de Manhiça. No âmbito da análise, foram monitorados dados recolhidos entre 2004 e 2020, correspondentes a mais de 664 mil consultas externas e cerca de 23 mil internamentos de crianças menores de 15 anos. As informações foram obtidas a partir da Plataforma de Vigilância Demográfica e de Saúde do CISM, um sistema que permite acompanhar a epidemiologia local ao longo do tempo com rigor científico.
De acordo com os resultados da análise, cujo artigo científico foi recentemente publicado na revista Open Forum Infectious Diseases, as crianças – sobretudo as menores de 5 anos que se dirigiram às Unidades Sanitárias com quadro de febre apresentavam uma grande diversidade de manifestações clínicas, com padrões distintos. Embora se tenha registado uma redução progressiva da mortalidade ao longo do período em análise, persistem desafios significativos para a melhoria contínua da saúde infantil na Manhiça.
Os resultados revelam igualmente as principais doenças associadas à febre. Nas consultas externas, predominavam diagnósticos como malária, infecções respiratórias superiores, febre não especificada, infecções respiratórias inferiores (como a pneumonia) e gastroenterites agudas. Por outro lado, entre as crianças internadas, as condições mais frequentes incluíam malária, infecções respiratórias inferiores, diarreias, malnutrição, infecção por HIV e convulsões febris. Para os investigadores, esses contrastes entre ambulatório e internamento ajudam a entender não apenas a prevalência das doenças, mas sobretudo a sua gravidade e impacto clínico ao Sistema Nacional de Saúde.
Ao longo dos 17 anos analisados, observou-se um declínio consistente no número de casos de febre, internamentos e mortes associadas. Os autores defendem que essa tendência pode ser atribuída a diversos avanços em saúde pública, como o reforço das campanhas de controlo da malária, a expansão da pulverização residual intra-domiciliária, a distribuição massiva de redes mosquiteiras e a introdução de vacinas fundamentais no Programa Alargado de Vacinação (PAV), incluindo a vacina pneumocócica em 2013 e a vacina contra o rotavírus em 2015.
Apesar dos progressos, o estudo destaca que a febre e doenças infecciosas continuam a ser um desafio complexo, especialmente porque está associada a uma grande diversidade de patologias. Acresce que, embora muitos dos sinais clínicos sejam facilmente reconhecíveis sem necessidade de exames laboratoriais sofisticados, persiste a necessidade de reforçar a capacitação dos profissionais de saúde para a identificação precoce de sinais de perigo.
Os resultados sublinham a necessidade urgente de reforçar os sistemas de triagem, melhorar a capacidade diagnóstica nas unidades sanitárias primárias, expandir intervenções preventivas e garantir um acompanhamento mais eficaz de crianças em situação de maios vulnerabilidade, especialmente aquelas afectadas por HIV e malnutrição.
A febre é um dos motivos mais frequentes de procura de cuidados de saúde em todo o mundo, especialmente entre crianças pequenas. No entanto, apesar de ser um sintoma recorrente e uma das causas mais frequentes de consulta médica, o maior desafio reside na identificação da causa e na distinção entre febres associadas a infecções leves e aquelas decorrentes de infecções severas, que requerem tratamento imediato. Em geral, a febre corresponde à elevação anormal da temperatura corporal – comumente acima dos 38°C – resultante de uma resposta do organismo a infecções, inflamações ou outros estímulos que levam o hipotálamo, o “termostato” do corpo, a reajustar a temperatura como mecanismo de defesa.
Referência
David Torres-Fernandez, Jessica Dalsuco, Cristina Garcia-Mauriño, Núria Balanza, Marta Valente, Sara Ajanovic, Rosauro Varo, Jaime Fanjul, Justina Bramugy, Antonio Sitoe, Llorenç Quintó, Tacilta Nhampossa, Edith Taylor, Fio Vialard, Arsenio Nhacolo, Bàrbara Baro, Anelsio Cossa, Zumilda Boca, Sergio Massora, Andrea Alemany, Inácio Mandomando, Pere Millat-Martinez, Pedro Aide, Quique Bassat, Epidemiology and outcomes of pediatric fever in a rural district of Southern Mozambique: 17 years of morbidity surveillance, Open Forum Infectious Diseases, 2025;, ofaf724, https://doi.org/10.1093/ofid/ofaf724





