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ESTUDO ALERTA PARA DESAFIOS NO TRATAMENTO DA MALÁRIA EM BEBÉS COM MENOS DE SEIS MESES EM MOÇAMBIQUE

Jéssica Dalsuco, investigadora do CISM, médica, e primeira autora do artigo.
Jéssica Dalsuco, investigadora do CISM, médica, e primeira autora do artigo.

A malária em bebés com menos de seis meses de idade continua a ser um desafio pouco reconhecido nos sistemas de saúde, apesar da elevada vulnerabilidade desta faixa etária à doença. A alerta surge numa revisão científica recente que reúne evidências sobre diagnóstico, tratamento e maneio clínico da malária neonatal e em lactentes pequenos. O estudo ganha particular relevância para Moçambique, onde a malária continua entre as principais causas de doença e mortalidade infantil, afectando sobretudo crianças menores de cinco anos e mulheres grávidas.


Segundo Jéssica Dalsuco, médica e investigadora do Centro de Investigação em Saúde da Manhiça (CISM), uma das principais conclusões do artigo é que ainda existem importantes limitações no tratamento da malária em bebés muito pequenos. “A descoberta mais importante é que o tratamento ideal da malária em bebés com menos de seis meses continua limitado e os protocolos terapêuticos ainda não estão bem definidos. Essa lacuna tem resultado na ausência de recomendações robustas e baseadas em evidências para crianças desta faixa etária”, explicou a investigadora.

O estudo diferencia-se de pesquisas anteriores

Jéssica Dalsuco acrescentou que, historicamente, esta população tem sido pouco incluída em estudos científicos sobre malária, o que dificulta a definição de tratamentos específicos e seguros. “Este estudo diferencia-se de pesquisas anteriores porque reúne e sintetiza, de forma abrangente, as evidências disponíveis sobre malária em crianças com menos de seis meses de idade, uma população frequentemente sub-representada na investigação científica”, afirmou.


A revisão científica destaca que ainda persiste a percepção de que recém-nascidos e lactentes pequenos possuem alguma protecção natural contra a malária, sobretudo devido à imunidade materna e ao aleitamento materno. No entanto, os investigadores alertam que estes bebés continuam vulneráveis à infecção, especialmente em países endémicos como Moçambique. Os sinais clínicos nesta faixa etária podem incluir febre, irritabilidade, dificuldade respiratória, recusa alimentar e fraqueza, sintomas frequentemente confundidos com outras doenças comuns da infância, o que dificulta o diagnóstico precoce.


O estudo foi financiado pela Novartis
O estudo foi financiado pela Novartis

Outro desafio identificado está relacionado com a escassez de evidências sobre segurança e eficácia dos medicamentos antimaláricos para bebés muito pequenos. Até recentemente, não existiam tratamentos oficialmente aprovados para crianças com menos de 4,5 quilogramas, criando lacunas importantes nas recomendações terapêuticas actualmente utilizadas.


Para Jessica Dalsuco, o artigo poderá ter impacto significativo na ciência e na saúde pública, sobretudo ao chamar atenção para um grupo frequentemente negligenciado. “Este estudo contribui para uma melhor compreensão da epidemiologia, dos factores de risco, das manifestações clínicas e dos desafios terapêuticos nesta faixa etária. Além disso, reforça a necessidade de mais investigação clínica para o desenvolvimento de tratamentos seguros, eficazes e baseados em evidências para estes bebés”, destacou.

Há que reforçar a recolha sistemática de dados sobre malária em bebés menores de seis meses

Os autores defendem que os próximos passos passam pelo reforço da recolha sistemática de dados sobre malária em bebés com menos de seis meses, pelo aumento da participação desta população em ensaios clínicos e pela melhoria da cobertura de medidas preventivas, como o uso de redes mosquiteiras tratadas com insecticida e terapias preventivas para mulheres grávidas.“O estudo também destaca a importância de sensibilizar profissionais de saúde que actuam em regiões endémicas, promovendo uma reavaliação das abordagens actuais para melhorar o diagnóstico, o tratamento e reduzir a morbilidade e mortalidade associadas à malária nesta faixa etária vulnerável”, acrescentou Jessica Dalsuco.


A investigadora do CISM descreve a sua trajectória científica como uma experiência enriquecedora e marcada pela colaboração com especialistas de referência na área da malária e tuberculose.


“A minha carreira como investigadora tem sido extremamente gratificante. Tenho tido a oportunidade de trabalhar e beneficiar da mentoria de profissionais de referência, cujos conhecimentos e orientação contribuíram significativamente para o meu crescimento na investigação científica”, afirmou.


Num contexto em que Moçambique continua entre os países mais afectados pela malária no mundo, os investigadores defendem que reforçar a investigação científica em grupos vulneráveis, como recém-nascidos e lactentes, poderá ser determinante para reduzir complicações graves e salvar vidas infantis.


Referência

Dalsuco J, Bassat Q, Ahmed H, Pfeffer S, Winnips C, Boulton C, Otsyula N, D'Alessandro U. Malaria in children aged <6 months: a narrative review of current evidence, recommendations and practice gaps. Trop Med Health. 2026 Apr 24;54(1):94. doi: 10.1186/s41182-026-00935-5. PMID: 42032704; PMCID: PMC13195890.


Saiba mais sobre o contributo do CISM na área da Malária


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