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DA EVIDÊNCIA À POLÍTICA: COMO O ESTUDO MULTIPLY ESTÁ A INFLUENCIAR AS ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO DA MALÁRIA EM CRIANÇAS

Nota: Este texto baseia-se num artigo originalmente produzido pela EDCTP (European & Developing Countries Clinical Trials Partnership), tendo sido adaptado para o contexto do CISM.
Em Moçambique, o projecto foi implementado no distrio de Massinga em Inhambane.
Em Moçambique, o projecto foi implementado no distrio de Massinga em Inhambane.

 

O projecto MULTIPLY (Multiple doses of IPTi Proposal: A lifesaving high yield intervention) implementado em Moçambique pelo Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), em estreita coordenação com o Ministério de Saúde (MISAU), entre 2022 a 2025, foi recentemente destacado pela EDCTP (European & Developing Countries Clinical Trials Partnership), como uma iniciativa que forneceu evidências robustas, em contextos reais. O estudo demonstrou que a Quimioprevenção da Malária Perene (PMC) pode ser implementada de forma eficaz através dos serviços de rotina de imunização, contribuindo para a redução do fardo da malária em crianças menores de 2 anos.


O MULTIPLY  foi um estudo multicêntrico, integrado nos sistemas nacionais de saúde da Serra Leoa, Moçambique e Togo, que avaliou a administração de sulfadoxina–pirimetamina (SP) durante os contactos de rotina do Programa Alargado de Vacinação (PAV) dos respectivos países. 


Ao longo de dois anos, cerca de 45.000 crianças com menos de dois anos foram abrangidas em 67 unidades sanitárias. A implementação da PMC foi adaptada aos contextos nacionais, com a adopção de seis doses na Serra Leoa e em Moçambique, e de quatro doses no Togo. Os Ministérios da Saúde, bem como os Programas Nacionais de Controlo da Malária (PNCM) e de Vacinação, estiveram activamente envolvidos ao longo do processo, assegurando o alinhamento da intervenção com os sistemas e políticas de saúde existentes.


Os resultados demonstram que a integração da PMC nas plataformas rotineiras do PAV é viável, aceitável e capaz de alcançar uma cobertura significativa. Mais de 55% das crianças receberam pelo menos três doses, embora a cobertura dos esquemas completos tenha permanecido abaixo dos 50%, evidenciando desafios operacionais associados à implementação de regimes mais prolongados. Dados provenientes de estudos de coorte e de dados de rotina indicam reduções na infecção por malária e nos episódios clínicos, bem como benefícios adicionais na redução da anemia e das admissões hospitalares em alguns contextos.


A intervenção foi bem aceite por cuidadores e profissionais de saúde, que valorizaram a sua integração nos serviços existentes. As análises de custo-efectividade sugerem que a PMC pode ser implementada com custos adicionais relativamente baixos, tirando partido das infra-estruturas já existentes, e oferecendo uma relação custo-benefício favorável em contextos de elevada transmissão. Importa destacar que a vigilância molecular não identificou aumentos significativos nos principais marcadores de resistência à SP após dois anos de implementação, embora se mantenha a necessidade de monitoria contínua.


Segundo a EDCTP, o estudo MULTIPLY já está a influenciar políticas nacionais. Em Moçambique, a PMC foi integrada na estratégia nacional de controlo da malária. Na Serra Leoa, estão em curso preparativos para a expansão do esquema para seis doses, enquanto o Togo adoptou uma estratégia de quatro doses em áreas de alta transmissão. A nível global, estes resultados estão a contribuir para as discussões da Organização Mundial da Saúde sobre a quimioprevenção da malária e a sua integração com esquemas de vacinação em evolução.


Ao integrar a investigação nos sistemas de rotina e ao promover um forte envolvimento com decisores políticos, o MULTIPLY demonstra como a investigação de implementação pode acelerar a adopção de intervenções eficazes e com potencial de salvar vidas. O projecto oferece um modelo escalável para integrar a prevenção da malária nos sistemas de saúde infantil, contribuindo para o avanço rumo à redução da mortalidade infantil em contextos de elevada carga da doença.


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