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FACE AOS DESAFIOS IMPOSTOS PELAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS, INVESTIGADORES PROPÕEM INOVAÇÃO TECNOLÓGICA NO CONTROLO DE VECTORES

26 de ago. de 2025
3 min de leitura
Equipa da entomologia montando armadilhas para captura de mosquitos em residências
Equipa da entomologia montando armadilhas para captura de mosquitos em residências

O Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), em coordenação com o Programa Nacional de Controlo da Malária (PNCM) e outros parceiros, assinalou o Dia Mundial do Mosquito com a realização de um webinar que juntou especialistas de Moçambique, Portugal, Brasil e Cabo Verde. A data, celebrada a 20 de Agosto, marca a descoberta feita em 1897 pelo médico britânico Sir Ronald Ross, que identificou os mosquitos do género Anopheles como vectores da malária, um marco que transformou a saúde pública mundial e abriu caminho para as primeiras estratégias eficazes de combate à doença.


O encontro virtual serviu de palco para apresentação de resultados de investigação, partilha de novas ferramentas tecnológicas e debate em torno dos desafios acrescidos que as mudanças climáticas colocam na luta contra os mosquitos e as doenças que transmitem. De forma consensual, os oradores defenderam que o futuro do controlo vectorial deve assentar na combinação de ciência de ponta, envolvimento comunitário e políticas públicas mais robustas.


Na abertura, a entomologista do CISM, Mara Máquina, sublinhou a diversidade de espécies de mosquitos e o seu peso na saúde global. Anopheles, Aedes, Culex, Mansónia, Psorophora e Wyeomyia continuam a ser responsáveis por milhares de mortes anuais. O cenário torna-se ainda mais complexo devido a crescente resistência aos insecticidas e às alterações ambientais que favorecem a sua proliferação.


Seguiu-se a intervenção de Inês António, responsável pelo controlo de vectores do PNCM, que apresentou a experiência moçambicana em prevenção comunitária da malária. Alertou, porém, que as alterações climáticas podem comprometer os ganhos já alcançados, aumentando o risco de entrada de novos vectores no país, como o Anopheles stephensi, asociado a novas formas de transmissão em diferentes regiões do mundo.


De seguida, a investigadora brasileira Flávia Virginio, actualmente na Universidade da Florida, trouxe uma reflexão sobre factores como urbanização, precariedade sanitária e uso do solo, que favorecem a proliferação de mosquitos. A cientista defendeu um maior investimento em métodos biológicos – como o uso de peixes, plantas e bactérias – e insistiu na importância da educação e sensibilização comunitária. Partilhou ainda resultados de estudos sobre morfometria de asas, essenciais para distinguir espécies, e deixou recomendações práticas, incluindo referências científicas de acesso aberto. Para Flávia, só com mais investimento em abordagens interdisciplinares e da promoção de práticas de consumo sustentável será possível enfrentar o problema de forma duradoura.


O professor Henrique Silveira, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, apresentou por sua vez um leque de inovações tecnológicas. Entre elas, destacou-se uma dieta artificial que dispensa o uso de sangue na criação de mosquitos em laboratório, uma ferramenta com potencial de revolucionar a investigação entomológica. Silveira expôs ainda os resultados de um ensaio com o repelente IR3535, que revelou impacto significativo na redução da densidade de Anopheles funestus, embora sem efeito estatisticamente relevante na prevalência da malária. O académico destacou ainda novas linhas de pesquisa sobre bactérias endossimbiontes modificadas, capazes de travar a capacidade dos mosquitos em transmitir doenças.


A sessão encerrou com a apresentação de Adilson José Pina, do Ministério da Saúde de Cabo Verde, que partilhou a experiência do país. Pina alertou para o impacto directo das mudanças climáticas na dinâmica dos vectores e defendeu o reforço da vigilância entomológica, sobretudo após eventos extremos, como as recentes enxurradas. O investigador apelou à implementação de medidas de adaptação que reduzam riscos e garantam a manutenção do estatuto de país livre de malária.


Mais do que um debate científico, o webinar lançou uma mensagem inequívoca: o controlo de mosquitos não pode assentar apenas no uso de insecticidas ou em soluções tecnologias isoladas. É preciso investir na educação das comunidades, sensibilizar as novas gerações e apostar em estratégias inovadoras que integrem ciência, sociedade e políticas públicas. Só assim será possível enfrentar, de forma eficaz, os desafios impostos pelas mudanças climáticas e travar o avanço das doenças transmitidas por mosquitos.

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