NOVO ARTIGO APRESENTA RESULTADOS DA RELAÇÃO ENTRE MALÁRIA E COINFECÇÃO POR HELMINTOS
- Nercio Machele
- há 14 minutos
- 3 min de leitura

A malária continua a ser uma das principais causas de doença e mortalidade em crianças na África Subsaariana, incluindo Moçambique, onde a transmissão permanece elevada em várias regiões do país. Ao mesmo tempo, infecções por helmintos – parasitas intestinais comuns em contextos de baixos recursos – coexistem frequentemente nas mesmas populações, criando um cenário complexo de múltiplas infecções que interagem no organismo humano. Apesar desta sobreposição, ainda persistem desafios significativos na compreensão de como estas infecções influenciam mutuamente a progressão da doença e a resposta imunológica.
Um artigo recentemente publicado por Inocência Cuamba, investigadora do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), em coautoria com outros cientistas, apresenta evidências relevantes sobre o impacto da coinfecção por helmintos na malária em crianças. O estudo, que constitui o artigo principal da sua tese de doutoramento, foi publicado na revista BMC Medicine.
A investigação analisou dados de 441 crianças, com idades entre os 2 e os 10 anos, no distrito da Manhiça – uma das áreas com transmissão persistente da doença – e baseou-se na análise de dados do projecto ECOHEMA (Estudo da coinfecção entre helmintos e malária e sua implicação na resposta imune contra malária).
Os resultados indicam que crianças com infecção simultânea por helmintos e malária apresentavam níveis significativamente mais baixos de parasitas no sangue, em comparação com aquelas infectadas apenas por malária. Esta redução da carga parasitária esteve também associada a sintomas menos intensos, nomeadamente temperaturas corporais mais baixas, sugerindo episódios clínicos potencialmente mais leves.
Entre as 74 crianças diagnosticadas com malária, cerca de 22% apresentavam coinfecção com helmintos transmitidos pelo solo, enquanto a maioria estava apenas infectada por Plasmodium falciparum. A coinfecção foi associada à menor densidade parasitária e à redução da febre, dois indicadores importantes da gravidade da doença.
Do ponto de vista imunológico, a equipa observou que a coinfecção estava associada a uma diminuição generalizada de citocinas inflamatórias – substâncias produzidas pelo sistema imunitário que, embora essenciais no combate à infecção, estão frequentemente associadas a manifestações mais graves da malária quando em níveis elevados. Estes resultados sugerem que os helmintos podem desempenhar um papel modulador, reduzindo a inflamação excessiva no organismo.

“Este estudo, realizado em colaboração com o ISGlobal no âmbito do meu programa de doutoramento, é particularmente importante porque ajuda a esclarecer como infecções comuns no nosso contexto podem influenciar a forma como as crianças respondem à malária”, afirma Inocência Cuamba. De acordo com Gemma Moncunill, investigadora do ISGLOBAL e coautora do artigo, “ os resultados mostram que estas interacções são mais complexas do que se pensava e podem até contribuir para reduzir a gravidade da malária. Compreender melhor estes mecanismos é fundamental para orientar intervenções de saúde pública mais integradas e eficazes em Moçambique e em outros países com contextos semelhantes.”
Paralelamente, o estudo identificou um aumento de determinados anticorpos específicos contra o parasita da malária em crianças coinfectadas, o que pode indicar uma resposta imunitária mais eficaz e potencialmente protectora. “Esta combinação de menor inflamação e maior resposta de anticorpos levanta novas hipóteses sobre o papel das coinfecções na construção de imunidade em contextos endémicos”, afirma a pesquisadora e última autora do artigo, Carlota Dobaño.
O projecto ECOHEMA foi implementado entre 2015 e 2016, em Manhiça, com financiamento do Fundo Nacional de Investigação. A componente imunológica do estudo foi realizada entre 2021 e 2025 no laboratório do grupo de Imunologia da Malária do ISGlobal, com apoio do Instituto de Salud Carlos III, e cofinanciamento do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional da União Europeia, no âmbito do Fundo de Investigação para a Saúde. Adicionalmente, esta componente beneficiou do apoio do programa Severo Ochoa – uma iniciativa do Governo espanhol – que financiou o doutoramento de Inocência Cuamba.
Referência
Cuamba, I., Santano, R., Grau-Pujol, B. et al. Helminth coinfections mitigate clinical, parasitological, and immune outcomes in Mozambican children with malaria. BMC Med (2026). https://doi.org/10.1186/s12916-026-04827-7

