ESTUDO PERICOVID ALERTA PARA A NECESSIDADE DE INCLUIR A MULHER GRÁVIDA NA VIGILÂNCIA CONTÍNUA EM CONTEXTOS DE EMERGÊNCIA DE SAÚDE PÚBLICA
- Nercio Machele

- há 2 dias
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Um estudo recentemente publicado na revista científica BMC Pregnancy and Childbirth, no âmbito do projecto PRECISE (PREgnancy Care Integrating translational Science, Everywhere), reforça a necessidade de incluir a mulher grávida na vigilância contínua do impacto das doenças em contextos de emergência de saúde pública, como a pandemia da COVID-19.
Num contexto pós-pandemia, os resultados do estudo continuam altamente relevantes para países como Moçambique, onde os serviços de saúde materna enfrentam desafios estruturais relacionados com a capacidade laboratorial, o rastreio sistemático e a monitoria clínica.
O estudo foi conduzido em Moçambique pelo CISM em colaboração com a Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane (FAMED-UEM), entre 2020 e 2021, envolvendo mulheres grávidas e seus recém-nascidos. Os resultados apontam para uma prevalência global de SARS-CoV-2 de 26,2%, variando de 4,9% no início da pandemia a 82% após a terceira onda. A investigação mostra que uma proporção significativa de mulheres grávidas foi infectada pelo SARS-CoV-2 no decurso da pandemia e que a maioria não apresentava sintomas, evidenciando o risco de transmissão silenciosa e as limitações de abordagens baseadas apenas na triagem clínica e nos dados de vigilância, nas quais a infecção na gravidez era raramente reportada.
Embora a avaliação da associação entre a infecção e desfechos adversos da gravidez não tenha constituído o foco principal deste estudo, a literatura científica descreve associações entre a infecção por SARS-CoV-2 e complicações maternas ou neonatais graves, incluindo morte materna, internamento em cuidados intensivos ou desfechos neonatais adversos. Neste sentido, os autores alertam para a necessidade de reforçar a vigilância contínua, sobretudo em contextos em que a capacidade de resposta do sistema de saúde permanece limitada.
Não podemos apenas depender de sintomas

Para a investigadora da Área de Saúde Materna no CISM/FAMED-UEM e primeira autora do artigo, Esperança Sevene, os resultados demonstram a importância de investir em sistemas de rastreio mais abrangentes nos cuidados maternos. “A elevada proporção de casos assintomáticos encontrada no estudo demonstra que depender apenas de sintomas para identificar infecções pode deixar muitas mulheres sem diagnóstico. Isso reforça a importância de sistemas de vigilância mais preparados para responder a futuras emergências sanitárias, sem deixar a mulher grávida para trás. Conhecer o peso da doença na mulher grávida permite preparar intervenções específicas para este grupo, incluindo medidas curativas e de prevenção, como vacinas.”
Para Sónia Maculuve, investigadora do CISM e uma das autoras do artigo, a investigação também demonstra a relevância da produção científica local para apoiar a tomada de decisão em saúde pública. “Estudos como estes ajudam-nos a compreender melhor como as epidemias globais afectam populações específicas no contexto moçambicano. A evidência científica produzida localmente é fundamental para orientar políticas de saúde mais adequadas à nossa realidade.”
O estudo integra o projecto PRECISE, uma rede internacional de investigação dedicada à saúde materna e neonatal, que reúne instituições de África (Moçambique, Quénia e Gâmbia), Europa e América do Norte e é financiada pelo fundo do Reino Unido para Investigação e Inovação.
O trabalho laboratorial foi financiado por fundos europeus através do programa European & Developing Countries Clinical Trials Partnership 2, enquanto os testes foram fornecidos pela Organização Mundial da Saúde, reforçando a importância das parcerias nacionais e internacionais que tornaram possível a realização deste estudo.
Referência
Sevene E, Maculuve S, Tchavana C, Valá A, Quimice L, Macuacua S, Carrilho C, Gonzalez R, Nhampossa T, Menendez C, Craik R, Hookham L, Le Doare K, von Dadelszen P; periCOVID-Africa and PRECISE Network. SARS-CoV-2 seroprevalence among pregnant women during the first three waves of the COVID-19 pandemic in southern Mozambique. BMC Pregnancy Childbirth. 2026 May 20. doi: 10.1186/s12884-026-09266-z. Epub ahead of print. PMID: 42163160.

