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RESULTADOS DO ESTUDO CHAMPS APONTAM QUE A PNEUMONIA CONTRIBUI PARA 40,6% DAS MORTES EM CRIANÇAS

Atualizado: 26 de mar.


Para além da pneumonia, outro estudo do CHAMPS conclui que 98,9% das mortes por malária poderiam ser evitadas através de um melhor acesso às medidas de controlo da malária.

As informações pormenorizadas sobre as duas das principais causas de morte em crianças com menos de cinco anos de idade - a pneumonia e a malária – estão disponíveis em dois novos estudos da rede CHAMPS (programa de Vigilância da Saúde Infantil e da Prevenção da Mortalidade), nos quais participou o Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e o Centro de Investigação em Saúde da Manhiça (CISM). Esta informação, publicada na revista The Lancet Child Adolescent Health e no Journal of Infection, ajudará a conceber intervenções baseadas em evidências e a orientar os esforços de investigação para reduzir a mortalidade infantil em regiões com elevada incidência.


Actualmente, morrem cerca de 14 000 crianças com menos de cinco anos por dia, na sua maioria em países de baixos rendimentos. O CHAMPS, liderado pela Universidade de Emory, foi lançado em 2015 para rastrear as causas de morte em crianças com menos de cinco anos, em vários locais da África Subsariana e da Ásia. Para determinar a causa da morte, o programa de Vigilância da Saúde Infantil e da Prevenção da Mortalidade utiliza uma técnica inovadora chamada amostragem de tecido minimamente invasiva (MITS).


Os dois novos estudos CHAMPS centraram-se em duas das principais causas de morte de crianças com menos de cinco anos - a pneumonia e a malária - para melhor estimar a verdadeira contribuição destas doenças para a mortalidade infantil e para melhorar as estratégias de prevenção e tratamento.

Pneumonia: elevada prevalência de co-infecções

A pneumonia é a principal causa infecciosa de morte em crianças com menos de cinco anos, mas a identificação da causa (se é bacteriana ou viral) é um desafio. Neste estudo, os investigadores do CHAMPS analisaram 1.120 mortes de menores de cinco anos que ocorreram entre Dezembro de 2016 e Dezembro de 2022 em seis países subsarianos (Etiópia, Quénia, Mali, Moçambique, Serra Leoa e África do Sul) e um na Ásia (Bangladesh). Utilizando MITS e dados clínicos, os investigadores descobriram que a pneumonia estava envolvida em até 40,6% de todas as mortes infantis. Mais de um agente patogénico (bacteriano, viral e/ou fúngico) esteve na origem de 57,8% das mortes por pneumonia. As bactérias mais comuns foram Streptococcus pneumoniae, Klebsiella pneumoniae e Heamophilus influenzae, enquanto o citomegalovírus foi o agente patogénico viral mais comum. Em cerca de dois terços dos casos, a pneumonia foi provavelmente adquirida na comunidade, enquanto cerca de um terço dos casos foi adquirido no hospital.


Apesar da utilização generalizada da vacina pneumocócica conjugada em todos os países participantes, o Streptococcus pneumoniae continuou a ser a principal causa de pneumonia adquirida na comunidade. "Isto significa que as mortes por pneumococos foram causadas por serotipos não incluídos na actual formulação da vacina ou em crianças não totalmente vacinadas", afirma o investigador do ICREA (Catalan Institution for Research and Advanced Studies) Quique Bassat, Director Geral do ISGlobal e coautor do estudo.


Os autores apontam para a necessidade de rever o tratamento clínico da pneumonia muito grave em contextos de baixo e médio rendimento. Por exemplo, o tratamento empírico actualmente recomendado para a pneumonia adquirida na comunidade em crianças seria inadequado para o tratamento da Klebsiella pneumoniae. Os resultados também sublinham a necessidade de investigação sobre vacinas novas ou melhoradas contra estes agentes patogénicos.


A malária continua a ser uma causa significativa de mortalidade infantil

Num outro estudo realizado nos mesmos sete países, os investigadores do CHAMPS liderados por Bassat concentraram-se na investigação das mortes relacionadas com a malária. Embora a doença continue a ser uma das principais causas de morte, especialmente em crianças com menos de cinco anos que já não estão protegidas pelos anticorpos maternos mas que ainda não desenvolveram imunidade natural à doença, ainda há muita incerteza sobre o verdadeiro peso da mortalidade associada à malária em áreas endémicas.


Os investigadores utilizaram MITS juntamente com dados sociodemográficos, clínicos, laboratoriais e de autópsia verbal para determinar as causas de morte em 858 crianças com idades compreendidas entre 1 e 59 meses. A proporção de mortes associadas à malária variou entre países: de 43% na Serra Leoa a 18% em Moçambique ou 0,3% no Mali. A vector da malária foi o único agente infeccioso em 70% destas mortes, enquanto as co-infecções bacterianas e virais foram identificadas em 24% e 12% dos casos, respetivamente. "Esta elevada percentagem de co-infecções bacterianas aponta para os potenciais benefícios da administração de antibióticos a doentes com malária grave", afirma Rosauro Varo, coautor principal do estudo.


Os autores estimam que quase todas as mortes relacionadas com a malária (98,9%) poderiam ter sido evitadas. "Em comparação com as mortes por não-malária, muitas das mortes por malária são facilmente evitáveis através do acesso a medidas de controlo da malária", afirma Bassat. Por exemplo, apenas 63% das crianças tinham recebido medicamentos antimaláricos antes da morte. No estudo sobre a pneumonia, os autores estimam que dois terços das mortes por pneumonia eram potencialmente evitáveis. Este facto confirma as estimativas anteriores do CHAMPS de que 82% das mortes de crianças em países de baixo rendimento poderiam ser evitadas. Em particular, a malnutrição foi um factor dominante nas mortes relacionadas com a pneumonia e esteve presente num terço das mortes por malária e não-malária.


Para além de fazer avançar os esforços de investigação, os investigadores do CHAMPS esperam que as conclusões destes estudos ajudem a orientar as agendas de saúde globais, as políticas e as intervenções baseadas em dados concretos para reduzir a mortalidade infantil nestas regiões de elevada incidência.


In Jornal Noticias, 21.03.2024



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