TAGENDI: INVESTIGADORA DO BOTSWANA CONCLUI DOUTORAMENTO E TORNA-SE A PRIMEIRA BOLSEIRA A ALCANÇAR O FEITO
- Wanderleia Iris Noa
- há 3 dias
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Atualizado: há 19 horas

A Dra Tuelo Mogashoa, do Botswana Harvard AIDS Institute Partnership (BHP), concluiu recentemente o seu doutoramento (PhD), tornando-se a primeira bolseira do programa TAGENDI (Abordando as LacunasRegionais de Género e Diversidade na Capacidade de Investigação Clínica), no âmbito do projecto TESA (Rede de Excelência da África Austral para Pesquisas Clínicas), consórcio coordenado pelo Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), a atingir este marco.
A sua tese, intitulada “Tuberculose resistente à rifampicina: uma ameaça emergente à saúde humana no Botswana”, aborda um dos desafios mais críticos no controlo da tuberculose, com foco em soluções inovadoras para diagnóstico e vigilância.
O percurso da investigadora no TESA teve início em 2019, quando assumiu a coordenação das actividades do projecto no BHP. Nessa função, foi responsável pela supervisão de estudantes, monitoria de prazos e gestão de relatórios técnicos e financeiros. A experiência, segundo relata a recém-graduada, foi inicialmente marcada por desafios, incluindo barreiras linguísticas no trabalho com parceiros internacionais. “Aprendi muito sobre gestão de projectos, gestão financeira e a importância de cumprir prazos e prestar contas de cada recurso utilizado”, destacou.
Em 2021, com o lançamento do programa TAGENDI – orientado para a formação avançada de mulheres –decidiu candidatar-se, apesar das dúvidas quanto à conciliação entre as funções de coordenadora e estudante. Incentivada por mentores, formalizou a sua inscrição em 2022, tornando-se a última estudante a ingressar no programa. Este início tardio colocou-a em desvantagem em relação às colegas, chegando a participar em encontros iniciais sem resultados de investigação, apenas com propostas e objectivos.
“Perguntava-me se conseguiria terminar a tempo, porque já tinha perdido um ano e o doutoramento exige muito tempo”, recorda. Ainda assim, definiu uma meta ambiciosa: publicar quatro artigos científicos durante o doutoramento – um objectivo que muitos consideraram difícil de alcançar. No entanto, conseguiu não só cumprir essa meta, como também ver os quatro artigos aceites para publicação antes da sua graduação. O primeiro artigo publicado foi, inclusive, o primeiro entre os bolseiros do TAGENDI.
A sua investigação centrou-se na aplicação da tecnologia de sequenciação de genoma completo para caracterizar casos de tuberculose resistente a medicamentos. Os resultados demonstraram que esta abordagem permite identificar resistência a múltiplos fármacos num único teste, ultrapassando as limitações dos métodos convencionais. O estudo evidenciou ainda que alguns testes actualmente utilizados podem nãodetector certos tipos de resistência, reforçando a necessidade de soluções mais avançadas, especialmente em casos complexos.
“Trabalhar com dedicação, não desistir e acreditar” foram princípios que orientaram a sua jornada, marcada pela disciplina e pela capacidade de conciliar responsabilidades profissionais e académicas.
Como mãe, a investigadora destaca que a conclusão do doutoramento representa um exemplo para as suas filhas e para outras mulheres, demonstrando que é possível alcançar objectivos académicos. Ester marcoreforça também o papel do programa TAGENDI na promoção da equidade de género na investigação científica em África, contribuindo para o aumento do número de mulheres com doutoramento e para o fortalecimento da capacidade científica no continente.
A sua jornada foi também marcada por desafios financeiros. Em determinado momento, o financiamento inicial esgotou-se; no entanto, um apoio adicional permitiu a continuidade do trabalho, incluindo a participaçãoem conferências científicas e a cobertura de custos essenciais.
Do ponto de vista profissional, a conclusão do doutoramento abre novas oportunidades para a captação de financiamento e o desenvolvimento de investigação independente. A Dra. Tuelo Mogashoa pretende estabelecer o seu próprio grupo de investigação e contribuir para a melhoria das políticas e práticas de diagnóstico e tratamento da tuberculose no Botswana e em África.
Com este marco, consolida a sua carreira científica e afirma-se como uma referência e inspiração para a nova geração de investigadoras africanas.
De referir que o programa TAGENDI é financiado pelo Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde (NIHR), com a colaboração do Governo do Reino Unido para apoiar a investigação em saúde global, no âmbito do programa EDCTP2, apoiados pela União Europeia. A iniciativa busca fortalecer a participaçãofeminina na pesquisa clínica, promovendo maior inclusão e equidade na região da África Austral.

