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DRONES E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ABREM NOVAS POSSIBILIDADES DE CONTROLO DE MOSQUITOS

há 7 minutos
4 min de leitura
Imagem gerada por IA
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O Centro de Investigação em Saúde da Manhiça (CISM), em parceria com o Programa Nacional de Controlo da Malária (PNCM) e a Associação Pan-Africana de Controlo de Mosquitos (PAMCA Moçambique), realizou, no dia 20 de Agosto, um webinar alusivo ao Dia Mundial do Mosquito, reunindo investigadores, profissionais de saúde, estudantes e outros intervenientes para discutir novas abordagens ao controlo de vectores e das doenças por eles transmitidas.


O evento evidenciou a necessidade de adopção de uma abordagem integrada ao controlo de mosquitos, combinando a vigilância entomológica, novas tecnologias, gestão de criadouros, melhoria das habitações e investigação científica.


Na abertura do webinar, o Director do Programa Nacional de Controlo da Malária, Stélio Tembe, destacou a importância de adaptar continuamente as estratégias de controlo vectorial às mudanças no comportamento dos mosquitos, à resistência aos insecticidas, às alterações climáticas, à urbanização e às mudanças ambientais. Embora intervenções como as redes mosquiteiras tratadas com insecticida e a pulverização intradomiciliária continuem a ser fundamentais, defendeu a necessidade de reforçar a vigilância entomológica e de investir em novas ferramentas. “O futuro do controlo vectorial provavelmente não está associado a uma única ferramenta, mas à capacidade de combinar intervenções, inovar, reforçar a vigilância e utilizar evidência científica”, salientou Stélio Tembe.

Conhecer melhor o mosquito para orientar as intervenções
Processo de Criação de Mosquitos em laboratório de entomologia
Processo de Criação de Mosquitos em laboratório de entomologia

A primeira apresentação, conduzida pela doutoranda Dulcisária Marrenjo, da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane, centrou-se no comportamento dos mosquitos e nas suas implicações para o controlo da malária. Com base em em dados de vigilância entomológica, a investigadora mostrou que alguns dos principais vectores da malária em Moçambique podem picar tanto no interior como no exterior das habitações. Foram também identificados períodos de maior actividade entre as 18h00 e as 19h00 e ao amanhecer, entre as 5h00 e as 6h00.


Segundo Dulcisária Marrenjo, estes padrões de comportamento têm implicações importantes para as actuais estratégias de prevenção, fortemente orientadas para a protecção no interior das casas, reforçando a necessidade de considerar intervenções complementares.

Filaríase linfática: lacunas de conhecimento continuam a desafiar a eliminação


Na segunda apresentação, em representação ao Departamento de Doenças Negligenciadas do Ministério da Saúde, Henis Sitoe apresentou a situação da filaríase linfática em Moçambique e as perspectivas para a sua eliminação como problema de saúde pública. O pesquisador destacou a existência de lacunas importantes de conhecimento sobre os vectores responsáveis pela transmissão da doença no contexto moçambicano. Embora a literatura internacional aponte diferentes géneros de mosquitos como potenciais vectores, Sitoe sublinhou a necessidade de produzir mais evidência nacional que permita compreender melhor esta relação.


A geração desse conhecimento ganha particular importância num contexto em que Moçambique definiu como meta a eliminação da filaríase linfática como problema de saúde pública até 2030.


Oradores do evento
Oradores do evento
Drones e inteligência artificial para localizar criadouros

Entre as abordagens inovadoras apresentadas no webinar destacou-se a utilização de drones associados à inteligência artificial para identificar e mapear habitats larvares. A iniciativa apresentada pelo Coordenador da SORA Technology, Wilson Simone, procura melhorar a gestão de criadouros de mosquitos no distrito da Matola. A abordagem utiliza drones para sobrevoar áreas seleccionadas e captar imagens que são posteriormente analisadas através de sistemas de inteligência artificial treinados para identificar corpos de água com potencial para funcionar como criadouros.


Segundo Wilson Simone, esta tecnologia permite substituir uma procura predominantemente manual e extensa por uma estratégia mais direcionada de identificação, priorização e tratamento dos criadouros.


O estudo em curso compara áreas intervencionadas com recurso a drones com outras onde são utilizados métodos convencionais. De acordo com o pesquisador, resultados de uma experiência semelhante realizada no Gana indicaram que a abordagem baseada em drones e inteligência artificial permitiu identificar aproximadamente três vezes mais criadouros, reduzir em mais de 60% o consumo de larvicida e diminuir em cerca de 50% a necessidade de recursos humanos, comparativamente com métodos convencionais.


Casas mais protegidas como ferramenta de controlo vectorial

Outra abordagem apresentada no webinar foi a utilização da engenharia e da arquitectura das habitações como barreira à entrada de mosquitos. O docente e investigador da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Lúrio, Micanaldo Francisco, apresentou resultados de um estudo realizado em Nampula que comparou habitações tradicionais com casas modificadas para reduzir a entrada de mosquitos.


As intervenções incluíram o fecho de aberturas, instalação de redes mosquiteiras nas janelas, a utilização de um mecanismo simples de fecho automático das portas e a melhoria a ventilação através de soluções de ventilação cruzada. Durante três meses de observação, foram recolhidos milhares de mosquitos. Os resultados mostram uma redução de 94% na entrada de mosquitos do género Anopheles e de cerca de 71% no número total de mosquitos nas habitações modificadas. Para além do impacto entomológico, os voluntários manifestaram preferência pelas casas modificadas, sobretudo pela redução do incómodo e do ruído provocado pelos mosquitos durante a noite.


O desafio passa por combinar ferramentas e sectores

Durante o debate, os especialistas convergiram na ideia de que os actuais desafios de controlo vectorial exigem uma resposta que vão além das intervenções tradicionais.


A identificação e monitoria de criadouros continua a ser particularmente complexa, uma vez que estes podem ser temporários, numerosos e dispersos, tornando os métodos convencionais exigentes em termos de tempo e recursos humanos. Paralelamente, as alterações climáticas podem favorecer o aparecimento de novos habitats para os mosquitos e aumentar a vulnerabilidade das populações através de fenómenos extremos que afectam as condições das habitações.


Os participantes defenderam, por isso, uma maior colaboração entre especialistas das áreas de saúde, arquitectura, urbanismo, epidemiologia e ambiente, com vista ao desenvolvimento de soluções adaptadas às condições económicas, sociais e culturais das comunidades.

No caso das habitações, por exemplo, foi destacada a importância de considerar os materiais disponíveis localmente, os hábitos culturais, a segurança, a capacidade financeira das famílias e as características específicas de cada contexto.


A principal mensagem do webinar foi clara: o controlo de mosquitos exige cada vez mais uma combinação de conhecimento sobre o comportamento dos vectores, inovação tecnológica, melhoria do ambiente construído e colaboração entre diferentes sectores.




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