ESTUDO COM QUANTIFERON-GOLD PLUS REVELA LIMITAÇÕES NO RASTREIO DA TUBERCULOSE EM PESSOAS COM HIV EM PAÍSES DE ALTA TRANSMISSÃO
- Nercio Machele

- há 6 horas
- 3 min de leitura

A tuberculose continua a ser um dos principais desafios de saúde pública em Moçambique, que figura entre os países com maior carga da doença e de coinfecção TB/HIV a nível mundial. O país regista um elevado número de casos anuais, com impacto significativo em populações vulneráveis, especialmente pessoas vivendo com HIV (PVHIV), sendo a transmissão comunitária persistente um dos principais desafios para o controlo da doença.
Actualmente, as estratégias de controlo da tuberculose incluem o diagnóstico precoce, o tratamento adequado dos casos activos e a implementação do tratamento preventivo em grupos de risco, como as PVHIV. Entre os regimes utilizados destacam-se o 3HP (rifapentina e isoniazida por três meses), o p3HP (regime repetido anualmente) e o 6H (isoniazida diária durante seis meses), com o objectivo de reduzir a progressão da infecção latente para doença activa.
Um estudo multicêntrico conduzido na Etiópia, África do Sul e Moçambique analisou a evolução dos resultados do teste QuantiFERON-Gold Plus (QFT-Plus) em PVHIV submetidas a diferentes regimes de tratamento preventivo da tuberculose (TPT), revelando desafios importantes na interpretação deste teste em cenários de alta transmissão da doença. Em Moçambique, o estudo foi implementado pelo CISM, entre 2017 e 2019, no âmbito do projecto WHIP3HP, que recrutou 4.014 participantes, dos quais 599 no país. O estudo foi financiado pela Stop TB Partnership e pela Sanofi-Aventis Groupe.
O QuantiFERON-Gold Plus (QFT-Plus) é um teste laboratorial que avalia a resposta imunitária à bactéria causadora da tuberculose, sendo frequentemente utilizado na detecção de infecção latente. Em comparação com o teste cutâneo tradicional, apresenta maior especificidade em vários contextos clínicos.
19% dos participantes apresentaram reversão dos resultados
No estudo, que acompanhou mais de 1.500 participantes ao longo de dois anos, verificou-se que cerca de 13% dos indivíduos inicialmente negativos passaram a apresentar resultados positivos no primeiro ano (conversões), sem diferenças significativas entre os regimes de TPT avaliados (3HP e 6H). No período entre 12 e 24 meses, as conversões continuaram a ocorrer, embora em menor proporção. Além disso, cerca de 19% dos participantes apresentaram reversão dos resultados, passando de positivos para negativos, sem variações significativas entre os diferentes grupos de tratamento. Observou-se ainda que indivíduos com resultado positivo no início do estudo apresentavam maior risco de desenvolver tuberculose ao longo do período de acompanhamento.
Os resultados demonstraram uma elevada variação nos resultados do QFT-Plus, mesmo entre indivíduos sob tratamento preventivo, com frequentes conversões e reversões. Estes achados sugerem que, em contextos de alta transmissão como Moçambique, a exposição contínua à bactéria pode influenciar significativamente os resultados, dificultando a sua interpretação ao longo do tempo.
Segundo o pesquisador do CISM na área da Tuberculose, Dinis Nguenha, “este estudo é particularmente relevante porque desafia a expectativa de que o tratamento preventivo reduza claramente novas infecções detectáveis. Em contextos de alta transmissão, os indivíduos continuam expostos, o que limita o impacto observado nos testes imunológicos”. Por outro lado, uma das principais autoras do artigo, Belén Saavedra, acrescenta que “as frequentes variações nos resultados do QFT-Plus mostram que o teste pode não ser suficientemente estável para monitorar do tratamento preventivo em pessoas vivendo com HIV, sendo necessária a identificação de outros biomarcadores mais robustos”.
Apesar destas limitações, os autores concluem que o QFT-Plus mantém valor prognóstico, uma vez que indivíduos com resultado positivo no início apresentam maior risco de desenvolver tuberculose. No entanto, os resultados reforçam a necessidade de repensar as estratégias de rastreio e acompanhamento em países com alta carga de TB/HIV, como Moçambique.
Referência:
Saavedra-Cervera B, Nguenha D, Chihota V, Yimer G, Fernández-Escobar C, Mngadi K, Brumskine W, Martinson N, Wang SH, Masilela L, Waggie Z, Martínez L, van den Hof S, Charalambous S, Cobelens F, Chaisson R, Grant AD, Fielding K, Churchyard G, Garcia-Basteiro AL. Dynamics of Quantiferon-Gold Plus results in a large TB preventive treatment trial across three high-burden HIV/TB countries. J Infect Dis. 2026 Mar 17:jiag165. doi: 10.1093/infdis/jiag165. Epub ahead of print. PMID: 41843759.

