NOVO ARTIGO CIENTÍFICO DO CHAMPS REVELA DESAFIOS NO COMBATE ÀS MORTES POR HIV EM CRIANÇAS MENORES DE 5 ANOS
- Nercio Machele
- há 17 minutos
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Um artigo publicado no âmbito da rede CHAMPS (Vigilância de Saúde Infantil e Prevenção da Mortalidade Infantil) revela que o HIV continua a ser uma das principais causas associadas à mortalidade em crianças menores de cinco anos em países com elevada prevalência, incluindo Moçambique, Quénia, Serra Leoa e África do Sul. A rede CHAMPS que implementa sistemas de vigilância pós-morte em 8 países, está em funcionamento em Moçambique desde 2016, nos distritos de Manhiça (província de Maputo) e Quelimane (Zambézia). Apesar dos avanços na prevenção da transmissão vertical do HIV e na expansão dos programas pediátricos de tratamento, os resultados indicam que persistem desafios significativos no diagnóstico e no acesso atempado ao tratamento antirret rzoviral. dd d
O artigo, cujo primeiro autor é o Investigador Sénior do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), Inácio Mandomando, analisou dados de crianças menores de 5 anos que perderam a vida entre Dezembro de 2017 e Dezembro de 2024. A investigação recorreu a uma abordagem padronizada que a recolha minimamente invasiva de tecidos (do inglês “MITS” – Minimally Invasive Tissue Sampling), exames histopatológicos, testes microbiológicos e moleculares, revisão de registos clínicos e autópsias verbais, permitindo uma determinação mais precisa das causas de morte.
Ao nível da rede CHAMPS, foram analisadas cerca de 5.200 mortes de crianças com causa atribuída, das quais 164 (3,2%) incluíram o HIV na cadeia de morte. Estes casos abrangem 2 crianças com menos de 28 dias de vida e 162 crianças com idades entre 1 e 59 meses.
Segundo Mandomando, “Moçambique foi o país que registou a maior proporção de óbitos associados ao HIV, com 38 dos 296 óbitos analisados (13%) casos analisados, seguido do Quénia (8%), Serra Leoa (8%), Mali (8%) e África do Sul (8%)”. Em contraste, na Etiópia foi registado apenas um caso (1%), enquanto no Bangladesh não foi identificado qualquer óbito atribuído ao HIV. De acordo com os autores, estes resultados refletem as diferenças na prevalência nacional dos países.
Análise por grupos etários indica que a proporção de mortes associadas ao HIV aumenta com a idade. Moçambique apresenta maior prevalência, variando de 0% (0/643) em neonatos, 10% (12/124) em crianças de 1 a 11 meses e 15% (26/172) em crianças com idades entre 12 a 59 meses. Estes resultados sugerem o possível papel de amamentação na transmissão tardia, bem como lacunas na implementação dos protocolos de HIV, nomeadamente na testagem e no seguimento em vigor no país, conforme evidenciado também pelos dados do estudo piloto em curso no distrito da Manhiça.
Segundo Mandomando, “um dos aspectos mais preocupantes identificados neste artigo foi a elevada proporção de crianças que, à data da morte, não tinham informação sobre o seu estado serológico para o HIV. Entre os 162 casos em que o HIV integrou a cadeia principal de causa de morte, apenas 68 (42%) não tinham o diagnóstico documentado antes da morte, e consequentemente, não tiveram acesso ao tratamento. Estes dados sugerem a existência de falhas na cascata de testagem e seguimento, sugerindo que uma parte significativa das crianças que morreram com HIV não tinha sido diagnosticada ou não se encontrava em tratamento, evidenciando oportunidades perdidas ao longo da cascata de cuidados”.
As mortes associadas ao HIV raramente ocorreram de forma isolada. A maioria das crianças apresentava múltiplas comorbidades e co-infecções, destacam-se infecções do tracto respiratório inferior (52%), sépsis (43%), malária (17%), doenças diarreicas (16%), anemia (14%) e meningite ou encefalite (9%). Apenas três mortes foram atribuídas à tuberculose, apesar da testagem molecular e histopatológica abrangente realizada no âmbito da vigilância.
A desnutrição revelou-se um factor determinante. Mais de metade das mortes atribuídas ao HIV (55%) incluíam desnutrição aguda ou emaciação associada à doença avançada. As medições antropométricas realizadas pós-morte revelaram que 67% das crianças estavam abaixo do peso adequado para a idade e 37% apresentavam atraso de crescimento severo. Os investigadores sublinham a forte interligação entre HIV, desnutrição e infecções, criando um ciclo que compromete significativamente a sobrevivência infantil.
O estudo indica ainda que a maioria das mortes atribuídas ao HIV foi considerada evitável pelo painel de especialistas multidisciplinares que determinaram as causas de morte. A ausência de diagnóstico em vida em mais de 40% dos casos, bem como a não utilização de tratamento antirretroviral em cerca de um terço das crianças diagnosticadas, evidenciam lacunas na testagem precoce, na ligação aos cuidados e na continuidade do tratamento. Os autores sublinham ainda desafios específicos no tratamento pediátrico, incluindo a necessidade de formulações adequadas ou ajustadas, a dependência de cuidadores e barreiras socioeconómicas que dificultam a adesão.
Financiado pela Fundação Gates, o estudo conclui que o HIV pediátrico continua a contribuir de forma significativa para a mortalidade em crianças menores de cinco anos em países com alta prevalência da doença. A combinação de diagnóstico tardio, desnutrição grave e múltiplas infecções oportunistas cria um cenário de elevada vulnerabilidade.
O reforço da deteção precoce do HIV, a expansão do acesso ao tratamento antirretroviral, a cc da transmissão vertical, a integração dos cuidados nutricionais e o controlo de infecções são apontados como medidas prioritárias para reduzir mortes evitáveis e aproximar os países das metas globais de controlo do HIV.
Referência
Mandomando, I., Madewell, Z. J., Mutevedzi, P. C., Igunza, K. A., Onyango, D., Rogena, E. A., Were, J., Nhampossa, T., Torres-Fernandez, D., Varo, R., Xerinda, E. G., Dangor, Z., Madhi, S. A., Mahtab, S., Sorour, G., Dempster, M., Lakoh, S., Ameh, S., Ogbuanu, I. U., Ojulong, J., Samura, S., Keita, A. M., Kotloff, K. L., Sidibe, D., Sow, S. O., Tapia, M. D., Assefa, N., Demessie, D., Madrid, L., Scott, J. A., Wakaya, G., El Arifeen, S., Gurley, E. S., Tippett Barr, B. A., Whitney, C. G., Blau, D. M., Bassat, Q., Akelo, V., The Child Health and Mortality Prevention Surveillance network. (2026). Post-mortem characterisation of HIV-associated under-5 deaths in the CHAMPS network: Population-based mortality surveillance. The Lancet HIV. https://doi.org/10.1016/S2352-3018(25)00330-3

