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Da Malária à Saúde Global: a história que começou numa pequena sala do Hospital Distrital da Manhiça

Atualizado: há 2 horas

Director Cientifico fundador do CISM, Predro Alonso, por detrás, a sala onde tudo começou.�
Director Cientifico fundador do CISM, Predro Alonso, por detrás, a sala onde tudo começou.

Durante o Gala Comemorativa dos 30 anos do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), o director científico fundador do CISM, Pedro Alonso, o director-geral do CISM, Francisco Saúte, e o coordenador da Área da Malária, Pedro Aide, revisitaram os principais marcos da instituição que, três décadas depois da sua criação, se tornou uma referência nacional e internacional em investigação em saúde, formação de cientistas e desenvolvimento de soluções para os principais desafios de saúde pública.

Tudo começou na Manhiça e com a malária

Pedro Alonso recordou que o CISM nasceu, em 1996, num pequeno espaço cedido pelo então Centro de Saúde da Manhiça, actual Hospital Distrital da Manhiça. Ao recordar os primeiros anos da instituição, explicou que a criação do CISM foi motivada pelas profundas desigualdades existentes na esperança de vida entre países. "Há trinta anos, existiamdiferenças superiores a trinta anos na esperança de vida, dependendo do local onde uma pessoa nascia. Isso não era aceitável", afirmou.


Segundo Pedro Alonso, esta realidade esteve na origem do CISM e continua a representar um desafio para os próximos anos: garantir que os próprios países disponham de capacidade científica para encontrar soluções para os seus problemas prioritários de saúde. Moçambique registou progressos extraordinários nas últimas três décadas, sobretudo na redução da mortalidade em crianças menores de cinco anos. No entanto, continuam a existir desafios importantes, especialmente no domínio das doenças infecciosas e da saúde materno-infantil", referiu.


O director cientïfico fundador recordou ainda que os primeiros contactos entre instituições moçambicanas e espanholas começaram em 1993 e 1994, dando origem às primeiras colaborações científicas. "O local onde tudo começou é o grande testemunho de que, não é necessária uma enorme infraestrutura para fazer boa ciência. Começámos numa sala muito pequena, onde realizamos os primeiros estudos", recordou.

"Manhiça não é filha de Barcelona. Barcelona é filha de Manhiça.”
Na foto, uma das visitas de Sua Alteza Real, a Infanta Dona Cristina, acompanhada pelo Presidente da Fundación ”la Caixa”, Isidro Fainé Casas.
Na foto, uma das visitas de Sua Alteza Real, a Infanta Dona Cristina, acompanhada pelo Presidente da Fundación ”la Caixa”, Isidro Fainé Casas.

Para Pedro Alonso, uma das características mais singulares da história do CISM é o facto de, ao contrário de muitos centros de investigação em África, cuja origem está ligada a instituições europeias ou norte-americanas, ter sido a experiência da Manhiça a inspirar a criação de uma instituição na Europa.


Pedro Alonso recordou que, após uma visita de dois dias ao CISM e a Moçambique, organizada por Sua Alteza Real, a Infanta Dona Cristina, o presidente da Fundação "la Caixa", Isidro Fainé Casas, ficou muito impressionado com o trabalho desenvolvido pelo Centro. "Um mês depois ligou-me e disse: - Tem de vir ver-me, porque fiquei tão impressionado com Manhiça que temos de fazer algo semelhante em Barcelona", contou.


Segundo Alonso, foi a partir dessa decisão que nasceu o Instituto de Saúde Global de Barcelona - ISGlobal. "Manhiça não é filha de Barcelona. Barcelona é filha de Manhiça", afirmou, numa das passagens mais emotivas da sua intervenção.


O investigador destacou que este percurso só foi possível graças ao apoio contínuo dos governos de Moçambique e de Espanha, de diversos parceiros nacionais e internacionais e, sobretudo, ao compromisso de centenas de investigadores, técnicos e outros profissionais que, ao longo de três décadas, contribuíram para a construção e consolidação o CISM.

De projecto de cooperação a centro de referência
Actual Director do CISM, Francisco Saúte, em uma actividade de assistência às comunidades em 2001
Actual Director do CISM, Francisco Saúte, em uma actividade de assistência às comunidades em 2001

Por sua vez, o director-geral do CISM, Francisco Saúte, apresentou a evolução institucional do Centro, desde a sua criação como projecto de cooperação técnico-científica entre Moçambique e Espanha até à constituição da Fundação Manhiça, em 2008, entidade responsável pela gestão do CISM. Segundo explicou, o Centro iniciou as suas actividades numa área de cerca dez quilómetros em redor da Manhiça, abrangendo aproximadamente 35 mil habitantes.


Francisco Saúte recordou que os primeiros anos foram marcados pela escassez de recursos humanos especializados e pela necessidade de desenvolver capacidades locais. "Precisávamos de microscopistas e não existiam profissionais disponíveis. Tivemos de formar o nosso próprio pessoal para trabalhar nos laboratórios. Precisávamos de um centro de dados e tivemos igualmente de formar técnicos para desempenharem esse trabalho", explicou.


O primeiro passo foi a criação do Sistema de Vigilância Demográfica e de Saúde, que permitiu estabelecer uma população de referência para os estudos epidemiológicos. Seguiram-se estudos sobre malária e ensaios clínicos de medicamentos, vacinas e meios de diagnóstico. Com o tempo, a investigação expandiu-se para áreas como tuberculose, HIV, doenças respiratórias, doenças bacterianas, doenças tropicais negligenciadas, genómica, modelação matemática, inteligência artificial e outras.


Entre os principais contributos do CISM para as políticas públicas de saúde, Francisco Saúte destacou a produção de evidências científicas que sustentaram a actualização do tratamento da malária em Moçambique, a implementação de estratégias de quimioprevenção, como o tratamento intermitente em lactantes, a quimioprevenção perene e a quimioprevenção sazonal da malária, bem como o desenvolvimento da vacina RTS,S. Destacou igualmente a contribuição do Centro para a introdução das vacinas contra o Haemophilus influenzae tipo b, o pneumococo, o rotavírus e o vírus do papiloma humano no Programa Alargado de Vacinação, bem como a criação da Unidade de Ensaios Clínicos e a acreditação do laboratório segundo a normaISO 15189.

O papel decisivo da comunidade de Manhiça
Pela sua dedicação e compromisso as Comunidades da Manhiça, tiveram um contributo excepcional para o desenvolvimento e consolidação do CISM ao longo das últimas três décadas. (Pedro Aide, numa das consultas - Foto de arquivo)
Pela sua dedicação e compromisso as Comunidades da Manhiça, tiveram um contributo excepcional para o desenvolvimento e consolidação do CISM ao longo das últimas três décadas. (Pedro Aide, numa das consultas - Foto de arquivo)

Pedro Aide centrou a sua intervenção no percurso que conduziu ao desenvolvimento da vacina RTS,S, descrevendo a malária como "uma história de medo, perdas e desigualdade". "Enquanto aqui estamos reunidos, uma família algures em África, perde uma criança por esta doença".


Segundo explicou, durante mais de duas décadas, o CISM liderou estudos clínicos que demonstraram ser possível desenvolver uma vacina segura e capaz de reduzir episódios clínicos de malária em crianças. "Esta não é apenas a história de uma vacina. É a história do que podemos alcançar quando a ciência, a comunidade e a esperança caminham juntas. Quando uma mãe decide confiar-nos o seu filho, é aí que tudo acontece. Milhares de mães confiaram os seus filhos para que pudéssemos testar, de forma segura, aquela que viria a tornar-se a primeira vacina contra a malária", afirmou.


Pedro Aide destacou que a comunidade da Manhiça teve um papel decisivo neste percurso, através da confiança depositada nos investigadores e da participação contínua nos estudos realizados pelo Centro. Após a recomendação da Organização Mundial da Saúde, em 2021, Moçambique iniciou, em 2024, a introdução da vacina da malária,, um dos maiores marcos da investigação desenvolvida pelo CISM. "Continuamos a investigar, a formar cientistas e a apoiar as decisões nacionais. Queremos também acompanhar o desenvolvimento da próxima geração de vacinas", concluiu Pedro Aide.


A história do CISM demonstra que uma instituição pode nascer num espaço modesto e, através da ciência, da cooperação e da confiança das comunidades, transformar-se num centro de referência internacional, mantendo-se fiel à missão que orientou a sua criação: produzir conhecimento e soluções capazes de melhorar a saúde e a vida das populações.



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