top of page

ESTUDO REVELA ELEVADA FREQUÊNCIA DE RESISTÊNCIA AOS ANTIRRETROVIRAIS ENTRE CRIANÇAS COM HIV E SUAS MÃES

há 14 minutos
4 min de leitura
O artigo foi publicado no Pediatric Infectious Disease Journal,
O artigo foi publicado no Pediatric Infectious Disease Journal,

Um estudo realizado no Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), identificou uma elevada frequência de mutações associados à resistência aos medicamentos antirretrovirais entre crianças que vivem com HIV e as suas mães, reforçando a importância de tornar acessíveis os testes de resistência e à monitorização da resposta ao tratamento, particularmente em contextos de baixa renda. O artigo publicado no Pediatric Infectious Disease Journal, analisou dados de 79 crianças com HIV, das quais 31 apresentaram resultados válidos nos testes genéticos de resistência. Foram igualmente analisadas amostras de 10 das suas mães.



O estudo envolveu a colaboração do CISM, a Fundação Ariel Glaser contra o SIDA Pediátrico e o Instituto Nacional de Saúde (INS) na província de Maputo. As crianças foram diagnosticadas e iniciaram precocemente tratamento antirretroviral, de acordo com as directrizes nacionais em vigor, tendo acompanhadas desde antes de começar, e ao longo de um período de seguimento de até 50 meses.


A análise genética das mutações associadas à resistência aos diferentes medicamentos antirretrovirais foi realizada no INS, em Maputo, através de técnicas de sequenciação de nova geração.


Mutações de resitência identificadas em crianças e mães

Entre as crianças analisadas, quase dois terços (18 casos, 58,1%) apresentavam pelo menos uma mutação associada à resistência aos medicamentos antirretrovirais. As mutações mais frequentes estavam associadas aos inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa (NNRTI), uma das classes de medicamentos utilizados no tratamento do HIV.


Nas mães, foram detectadas mutações de resistência na metade de casos (em cinco de 10, 50%). Mais importante ainda, três pares mãe-filho, correspondente a 30% dos pares avaliados, foram detectadas mutações de resistência partilhadas. Este resultado a possibilidade de transmissão de resistência da mãe para a criança, e reforça a necessidade de compreender melhor a dinâmica da resistência no contexto da transmissão vertical do HIV.


Um dos resultados considerados particularmente relevantes pelos investigadores foi a ausência de mutações associados à resistência aos inibidores da integrase (INSTI), tanto nas crianças como nas mães. Segundo os autores, este resultado é provavelmente explicado pelo período em que os participantes foram recrutados, entre 2018 e 2021, anterior à utilização generalizada dos regimes terapêuticos baseados nesta classe de medicamentos em Moçambique.


Os resultados apoiam, assim, a transição feita em Moçambique para regimes contendo dolutegravir, actualmente integrados nas directrizes nacionais para o tratamento do HIV.


Segundo David Torres-Fernandez, primeiro autor do estudo, “os resultados mostram uma frequência elevada de mutações de resistência tanto nas crianças como nas mães, incluindo mutações partilhadas entre alguns pares. Isto reforça a importância de melhorar o acesso aos testes de resistência nas crianças e mães para evitar a mortalidade e maus desfechos clínicos.”


Desafios na resposta ao tratamento e importância do acompanhamento integrado

Para além das mutações de resistência, o estudo identificou desafios importantes relacionados com os resultados clínicos e a continuidade do tratamento.


Das 79 crianças acompanhadas, 16 (20,3%) morreram durante o período de seguimento. Apenas 12 das 47 crianças com dados disponíveis (25,5%) alcançaram supressão virológica sustentada, ou seja, conseguiram manter a quantidade de vírus no sangue controlada ao longo do tempo. Adicionalmente, 43 (54,4%) apresentaram adesão subóptima ao tratamento antirretroviral.

Estes resultados evidenciam a importância de reforçar o acompanhamento clínico, a monitorização da carga viral e o apoio à adesão ao tratamento, mesmo quando a sua iniciação ocorre precocemente.


Para Tacilta Nhampossa, coordenadora da área de Saúde Materno-Infantil do CISM e uma das investigadoras do estudo, os resultados demonstram a necessidade de abordar a resistência aos antirretrovirais de forma integrada, considerando tanto a saúde da mãe e como da criança. “A ausência de mutações de resistência aos inibidores da integrase é um resultado encorajador e reforça a utilização de regimes contendo dolutegravir como primeira linha de tratamento nas crianças. Ao mesmo tempo, estes resultados reforçam a importância da monitorização da resposta ao tratamento, particularmente através da carga viral. A saúde da criança não pode ser dissociada da saúde e do historial de tratamento da mãe, sendo fundamental uma abordagem integrada, desde a prevenção da transmissão vertical até ao diagnóstico, tratamento e seguimento mãe e da criança ao longo do tempo.”


Contributos para a melhoria do tratamento do HIV

O estudo destaca a importância de ampliar o acesso aos testes de resistência aos antirretrovirais, de modo a apoiar decisões terapêuticas mais informadas e contribuir para a melhoria dos resultados clínicos, particularmente entre crianças que vivem com HIV.


Os investigadores reconhecem, contudo, algumas limitações, nomeadamente relacionadas com o tamanho da amostra e a disponibilidade de amostras para os testes de resistência. Neste sentido, recomendam a realização de estudos prospectivos com amostras mais amplas, que permitam aprofundar o conhecimento sobre os padrões de resistência e a sua possível transmissão entre mães e crianças.


O estudo conclui que a elevada frequência de mutações de resistência observada nos pares mãe-filho, associada à elevada ocorrência de desfechos clínicos adversos entre as crianças, evidencia o potencial valor de tornar os testes de resistência aos medicamentos mais acessíveis a crianças e mães nos países subdesenvolvidos.


Referência:

  • Torres-Fernandez D, Fernández-Luis S, Domínguez-Rodríguez S, Nhampossa T, López-Varela E, Lain MG, Naniche D, Vaz P, Ismael N, Spyer MJ, Byott M, Nastouli E, Bassat Q, Rojo P, Rossi P, Giaquinto C, Tagarro A; EPIICAL Consortium. HIV-1 Drug Resistance in Mother-Infant Pairs in Southern Mozambique. Pediatr Infect Dis J. 2026 Sep 28. doi: 10.1097/INF.0000000000005426. Epub ahead of print. PMID: 42802382.

Endereços e contactos

SEDE, MANHIÇA, BAIRRO CAMBEVE​

Rua 12, CP 1929

Telf: (+258)  82 316 85 30 /  84 398 68 23

fundacao.manhica@manhica.net

ESCRITÓRIO DA CIDADE DE MAPUTO​

Avenida Fernão Melo e Castro, Nº 247, 1º andar, Sommerschield 1 

ESCRITÓRIO DE QUELIMANE​

Av. da Libertação Nacional nr 1035, Unidade de Sinacura

Email: dinoca.gesse@manhica.net

ESCRITÓRIO DE MOPEIA​

Rua Principal, Mopeia Sede

(Enfrente a praça dos trabalhadores)

Email: humberto.munguambe@manhica.net 

Uma iniciativa de

bottom of page