INVESTIGAÇÃO, INOVAÇÃO E COLABORAÇÃO MARCAM 2º FÓRUM ANUAL DA MTBI EM MAPUTO

O encontro reuniu investigadores, profissionais de saúde, representantes de instituições nacionais e internacionais, parceiros e estudantes para debater os avanços científicos e as prioridades da investigação em tuberculose em Moçambique.
Como transformar os resultados da investigação científica em soluções concretas para responder aos desafios da tuberculose (TB) em Moçambique? Esta foi uma das principais questões que orientaram os debates do 2º Fórum Anual da Iniciativa da Manhiça contra a Tuberculose (MTBI), realizado na última quinta-feira, 01 de Outubro, em Maputo.
Sob o lema “Aprimorando a Investigação para Melhorar o Controlo da Tuberculose em Moçambique”, o fórum constituiu um espaço de partilha de evidências científicas, reflexão desafios actuais e identificação de oportunidades para fortalecer a investigação e a sua contribuição para as políticas e práticas de saúde pública.
O encontro integrou as celebrações dos 30 anos do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), assinalando três décadas de contribuição para a produção de conhecimento científico e para a melhoria da saúde em Moçambique.
Investigação alinhada com as prioridades nacionais de saúde

Em representação do Ministério da Saúde (MISAU), o Director Nacional de Planificação e Cooperação do MISAU, José Manuel, destacou a importância do Fórum como espaço de diálogo, partilha de conhecimentos e aproximação entre a comunidade científica e os responsáveis pela definição e implementação das políticas nacionais de saúde.
Reconhecendo que a TB continua a constituir um importante desafio para Moçambique, apesar dos progressos alcançados, o representante do MISAU sublinhou a necessidade de produzir evidências científicas que respondam aos problemas concretos do país e contribuam para melhorar a prevenção, o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento das pessoas afectadas pela doença.
Defendeu, igualmente, o reforço da colaboração entre programas nacionais, instituições de investigação, universidades, profissionais de saúde, comunidades e parceiros de cooperação, de modo a assegurar que o conhecimento produzido se traduza em intervenções com impacto na saúde da população. “Por isso, reconhecemos o contributo do MTBI e do CISM para o fortalecimento da investigação em tuberculose no país, bem como o percurso de três décadas do Centro ao serviço da investigação em saúde em Moçambique”, sublinhou o representante do MISAU no Evento.

Para o Dr. Alberto García-Basteiro, investigador e responsável pela área de tuberculose do CISM, espaços como o fórum são fundamentais para promover uma reflexão conjunta sobre as respostas à doença, desde o diagnóstico e tratamento até à prevenção e às consequências da doença na saúde e na qualidade de vida das pessoas.
O investigador destacou a importância de uma maior articulação entre programas nacionais, instituições de investigação, parceiros técnicos, unidades sanitárias e financiadores, para que a investigação esteja cada vez mais alinhada com as prioridades de saúde pública. Realçou ainda a participação de estudantes, considerando-a um sinal positivo do interesse das novas gerações pela investigação científica.
Novas abordagens para o diagnóstico e a prevenção da tuberculose
Um dos momentos centrais do programa científico foi a palestra principal, proferida pela Profª Molebogeng Rangaka, investigadora associada à University College London, no Reino Unido, e à University of Cape Town, na África do Sul.
A apresentação abordou os avanços e desafios no diagnóstico da infecção por tuberculose (TB), com destaque para as limitações dos métodos actualmente utilizados, como o Teste Tuberculínico (TST ou PPD) e o Ensaio de Liberação de Interferon-Gama (IGRA). Embora estes testes permitam identificar uma resposta imunológica associada à exposição ao Mycobacterium tuberculosis, não conseguem determinar, com precisão, a infecção activa da infecção latente, nem identificar as pessoas com maior risco de desenvolver a doença. Neste contexto, foi destacada a necessidade de desenvolver ferramentas de diagnóstico mais precisas, capazes de ultrapassar a simples identificação da exposição à bactéria e de responder a uma questão fundamental: “Quem apresenta maior risco de desenvolver tuberculose e poderá beneficiar mais do tratamento preventivo neste momento?”

A apresentação destaca três dimensões essenciais para avaliar o progresso dos testes: a precisão, ao identificar pessoas com maior risco de desenvolver tuberculose; o impacto clínico, ao demonstrar benefícios concretos na prevenção e na redução de casos da doença; e a preferências das pessoas, ao considerar factores como acessibilidade, custos, rapidez e facilidade de utilização.
Com isso, Rangaka deixa um apelo para Moçambique “a próxima geração de diagnósticos da TB deve ir além da identificação de exposição à doença e concentrar-se na identificação de quem tem maior risco de desenvolver TB e quem mais beneficiará do tratamento preventivo”, concluiu.
A voz de quem viveu a tuberculose

Um dos pontos altos do evento foi o testemunho de Carla Cândida, que partilhou a sua experiência enquanto sobrevivente de tuberculose multirresistente, trazendo para o debate a voz de quem viveu directamente os desafios associados à doença.
Num relato pessoal, Carla contou o seu duro percurso de cerca de 5 anos, durante o qual passou por diversas unidades sanitárias até chegar a cura. Agradeceu o acompanhamento recebido dos profissionais de saúde e afirmou não ter sentido nenhum tipo de discriminação ao longo do processo.
A sua intervenção apelou aos investigadores para a duração e as exigências do tratamento, que podem constituir obstáculos á sua conclusão, dizendo que “muitas vezes a desistência é devido ao longo período de tomada dos medicamentos”.
O testemunho reforçou a importância de colocar as pessoas afectadas pela tuberculose no centro da investigação e da definição de estratégias de resposta à doença, considerando não apenas os resultados clínicos, mas também a experiência, as necessidades e a qualidade de vida dos doentes.
Investigação nacional apresenta resultados e novas perspectivas
O programa científico incluiu a apresentação de diversos estudos conduzidos por investigadores nacionais, abrangendo diferentes dimensões da tuberculose, desde o diagnóstico e a prevenção até ao tratamento e às consequências da doença.
Patrícia Manjate, do CISM, apresentou um estudo sobre biomarcadores imunológicos capazes de diferenciar casos de TB confirmados bacteriologicamente daqueles diagnosticados clinicamente, e prever resultados do tratamento em pessoas vivendo com HIV.
Amuly Chilopola, também do CISM, apresentou o estudo TB QUEST, que procura aprofundar o conhecimento sobre a epidemiologia da tuberculose assintomática, contribuindo para uma melhor compreensão das formas de apresentação da doença e dos desafios da sua identificação.
Por sua vez, Agostinho Lima, do CISM, abordou as lições e considerações relevantes para a futura introdução de uma nova vacina contra a tuberculose em Moçambique, num contexto de desenvolvimento de novas ferramentas de prevenção.

As consequências da doença após a conclusão do tratamento também esteveram em destaque, através da apresentação de Pedroso Nhassengo, do Instituto Nacional de Saúde (INS), que analisou as implicações das sequelas pulmonares pós-tuberculose para a saúde e a qualidade de vida das pessoas afectadas.
Colaboração e definição para a investigação em tuberculose
A mesa-redonda, subordinada ao tema “Como podemos desenvolver uma agenda de investigação sobre a tuberculose que responda às prioridades do país?”, constituiu outro momento central do Fórum. A discussão contou com a participação de representantes do Programa Nacional de Controlo da Tuberculose (PNCT), dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), do CISM, do INS e da Fundação Aurum, permitindo cruzar diferentes perspectivas sobre os desafios, as prioridades e as oportunidades de investigação em Moçambique.
Entre os principais pontos discutidos destacou-se a necessidade de estabelecer mecanismos permanentes de diálogo entre os programas nacionais e as instituições de investigação, permitindo transformar os desafios identificados na implementação em perguntas de pesquisa e estudos com aplicação prática.
Os participantes reflectiram ainda sobre a importância de alinhar as agendas nacionais com as prioridades internacionais de investigação e as oportunidades de financiamento, sem perder de vista as necessidades específicas do país.
Foi igualmente sublinhada a necessidade de fortalecer a capacidade das instituições moçambicanas para definir e liderar agendas próprias de investigação, promover parcerias e mobilizar recursos para o desenvolvimento de estudos relevantes para a resposta nacional à tuberculose.
Neste contexto, a Fundação Aurum destacou ainda o potencial da investigação operacional para responder a questões que surgem durante a implementação dos programas de control da TB, produzindo evidências capazes de apoiar a tomada de decisões e a formulação de recomendações pelo PNCT.

De produção de conhecimento à acção
Em suma, ao longo do Fórum, ficou reforçada a mensagem transversal: a investigação científica só alcança plenamente o seu potencial quando os resultados produzidos contribuem para melhorar as políticas, os programas e as práticas de saúde.
O 2º Fóruma Anual da MTBI evidenciou, assim, a importância de consolidar uma agenda de investigação em tuberculose orientada pelas prioridades nacionais, sustentada em parcerias e atenta às necessidades das pessoas e comunidades afectadas. Mais do que um espaço de apresentação de resultados científicos, o encontro constituiu uma oportunidade para fortalecer o diálogo entre investigadores, decisores, profissionais de saúde e parceiros, reafirmando o compromisso colectivo de transformar conhecimento em soluções concretas para melhorar a prevenção, o diagnóstico, o tratamento e o controlo da tuberculose em Moçambique.



