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MOÇAMBIQUE ENFRENTA NOVOS DESAFIOS NO COMBATE À MALÁRIA À MEDIDA QUE OS MOSQUITOS SE ADAPTAM

há 20 minutos
3 min de leitura
Coordenador da área de Malária no CISM, Pedro Aíde.
Coordenador da área de Malária no CISM, Pedro Aíde.
Fonte: Entrevista de Pedro Aide à Radio France Internationale (RFI).

Em entrevista à Radio France Internationale (RFI), Pedro Aide, investigador e coordenador da Área da Malária do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), destacou alguns dos principais desafios que continuam a dificultar o controlo da malária em Moçambique. Apesar dos avanços alcançados, a doença continua entre as principais causas de doença, internamento e morte no país.

Mosquitos cada vez mais adaptados

Um dos principais desafios apontados pelo investigador é a crescente capacidade dos mosquitos de desenvolver resistência aos insecticidas utilizados na pulverização intradomiciliária e nas redes mosquiteiras tratadas com insecticida.


Paralelamente, têm sido observadas alterações no comportamento dos vectores, que tendem a picar e a repousar com maior frequência no exterior das casas. Esta mudança pode reduzir a eficácia de intervenções tradicionalmente concebidas para actuar no interior das habitações e reforça a necessidade de desenvolver e testar novas estratégias de controlo.


Neste contexto, Pedro Aide referiu algumas abordagens que estão a ser estudadas em diferentes partes do mundo, incluindo o uso de mosquitos geneticamente modificados, salientando, contudo, que estas abordagens ainda requerem investigação para determinar a sua efectividade.


As alterações climáticas acrescentam outro factor de preocupação. Variações na temperatura, precipitação e disponibilidade de água podem afectar a reprodução, distribuição e comportamento dos mosquitos. Temperaturas elevadas, ciclones e cheias podem criar condições favoráveis à reprodução do vector e contribuir para alterações na distribuição geografia da malária, incluindo o reaparecimento da transmissão em áreas onde anteriormente tinha sido reduzida ou eliminada.

O controlo da malária exige uma resposta multissectorial

Para Pedro Aide, combater a malária não pode ser uma responsabilidade exclusiva do sector da Saúde. A forma como as habitações são construídas, o crescimento urbano, a gestão da águas e o ordenamento das comunidades também influenciam directamente a exposição aos mosquitos. Em muitas zonas rurais, por exemplo, aberturas nos tectos, paredes, portas e janelas podem facilitar a entrada dos vectores. Por outro lado, a ocupação das zonas pantanosas ou próximas de rios e outras colecções de água pode criar condições favoráveis para à sua reprodução.


O investigador defende, por isso, uma abordagem integrada que envolva, para além da saúde, sectores como a agricultura, urbanização, obras públicas e transportes, incluindo aspectos relacionados com o planeamento das comunidades e a construção e manutenção de ruas, valas e sistemas de drenagem.


Vacinação deve completar outras medidas de prevenção

A vacina contra a malaria constitui mais uma ferramenta importante, mas não substitui as restantes intervenções. Segundo Pedro Aide, as vacinas actualmente disponíveis apresentam uma eficácia de cerca de 40% a 50% e devem ser utilizadas em combinação com outras medidas de prevenção. A vacina R21, já introduzida em quase todo o país, integra este conjunto de ferramentas. Contudo, o investigador reforça igualmente a importância da adesão das comunidades ao uso correcto das redes mosquiteiras tratadas com insecticida e à pulverização intradomiciliária. “É através da combinação das diferentes intervenções que será possível aumentar a efectividade das medidas de controlo e reduzir o peso da malária em Moçambique”, enfantiza Pedro Aide.


A investigação do CISM no combate à malária

A malária é uma das principais áreas de investigação do CISM. Desde a sua criação, o Centro tem contribuído para o desenvolvido e avaliação de estratégias inovadoras de prevenção, controlo e eliminação da doença em diferentes contextos de transmissão em Moçambique.


A investigação desenvolvida abrange, entre outras áreas, o estudo dos mecanismos fisiopatológicos e imunológicos da malária e da resistência aos antimaláricos, a realização de ensaios clínicos de fármacos e vacinas, o desenvolvimento de inteligência entomológica e de novas ferramentas para o controlo vectorial, e a investigação de implementação alinhada com as prioridades do Programa Nacional de Controlo da Malária.


Este trabalho inclui igualmente áreas como comunicação para mudança de comportamento, prevenção da malária na gravidez, controlo vectorial e manejo de casos, contribuindo para gerar evidência que apoie a resposta nacional à doença.

 

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