PROJECTO CLIMAH ENVOLVE COMUNIDADES NA AVALIAÇÃO DE ZONAS AFECTADAS POR EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS

Com recurso a métodos participativos, o Projecto CliMaH está a trabalhar directamente com comunidades para compreender como os eventos climáticos extremos, como as cheias, secas e ciclones, afectam a vida das populações, a sua mobilidade e o acesso aos serviços essenciais, particularmente aos cuidados de saúde materna e infantil.
Financiado pela Swiss National Science Foundation (SNSF) e implementado pelo Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), entre 2025 e 2028, a iniciativa procura avaliar a interacção entre as alterações climáticas, a mobilidade populacional e a urbanização, e os seus efeitos na saúde materna e infantil em Moçambique. O estudo combina dados climáticos, demográficos e de saúde com trabalho de campo e métodos participativos, abrangendo zonas consideradas críticas nas províncias de Maputo, Gaza e Nampula.
Uma das ferramentas de recolha de dados utilizadas no terreno é o Transect Walk, que consiste na realização de uma técnica participativa que envolve a equipa de investigação e os próprios membros da comunidade numas caminhadas de observação em áreas previamente identificadas, rnvolvendo investigadores e membros das comunidades. Antes de cada caminhada, os participantes discutem e identificam os locais mais relevantes para a observação, elaborando um mapa rudimentar da área que orienta a definição das rotas a percorrer.
Durante as caminhadas, os membros da comunidade ajudam a identificar e caracterizar locais afectados por eventos climáticos, incluindo pontos de acesso a água, unidades sanitárias, farmácias, mercados, estradas, vias de circulação e outras infraestruturas comunitárias. Esta técnica permite ainda identificar barreiras de acesso aos serviços essenciais, alterações nos percursos habitualmente utilizados pelas populações, recursos comunitários e estratégias adoptadas pelas famílias para lidar com situações de risco.
Segundo Felizarda Amosse, coordenadora do estudo, a experiência realizada até ao momento demonstra a importância do envolvimento das comunidades na identificação de zonas de maior risco e na compreensão dos impactos dos eventos climáticos na vida das comunidades. “Em Magoanine A, na cidade de Maputo, por exemplo, a participação dos residentes permitiu identificar zonas persistentemente inundadas, abrangendo 47 quarteirões afectados por inundações desde 2023, vias de acesso bloqueadas, habitações afectadas e dificuldades no acesso à unidade sanitária e à água potável. A comunidade também ajudou a compreender como estes problemas evoluíram ao longo do tempo e de que forma as famílias adaptaram os seus percursos e estratégias às condições encontradas” explica.
A participação comunitária acrescenta, assim, uma dimensão que dificilmente seria captada apenas através de dados geográficos ou estatísticos. O conhecimento dos residentes ajuda a explicar, por exemplo, por que razão determinadas famílias permanecem em zonas de risco, quais os locais que se tornam inacessíveis durante as cheias e que alternativas são encontradas para chegar aos serviços essenciais.
Entre as estratégias identificadas destacam-se a utilização de bombas de drenar águas acumuladas, a construção de barreiras improvisadas e a busca de novas rotas alternativas de circulação. Estes elementos ajudam a compreender não apenas a exposição das comunidades aos riscos climáticos, mas também as suas capacidade de adaptação e resiliência.
Tecnologia e conhecimento local completam a investigação

Para complementar o trabalho realizado com os membros das comunidades, a equipa de investigação recorre também a uso de drones para melhor documentar e mapear as condições observadas no terreno. Esta tecnologia permite recolher imagens que, através de técnicas de fotogrametria, são utilizadas na criação de modelos tridimensionais (3D) das áreas, para as representar de forma mais detalhada as áreas e estruturas observadas durante o trabalho de campo. Os modelos produzidos permitem representar com elevado detalhe a estrutura dos assentamentos, auxiliando na análise das condições ambientais, do estado das infraestruturas e das barreiras físicas de acesso aos serviços de saúde e água.
A combinação destas ferramentas com o conhecimento das comunidades constitui uma das componentes centrais da abordagem do CliMaH, que integra dados climáticos e de satélite, informação geoespacial, métodos epidemiológicos e técnicas participativas para compreender melhor os efeitos das alterações climáticas na saúde.
Ao integrar diferentes fontes de informação, o projecto pretende produzir evidências que possam contribuir para a identificação de padrões de risco e para o desenho de estratégias de adaptação mais adequadas às necessidades e realidades das comunidades no país.




